30 de junho de 2011

tenho fases como a lua

"quem lhe disse que eu era riso sempre e nunca pranto?" (chico buarque com foto daqui )

eu não sei o que meu corpo abriga

"Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como? Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra. Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra. A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas. “Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia. Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos."!
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crônica do livro doidas e santas da martha medeiros que eu ando lendo e foto não me lembro de onde!

24 de junho de 2011

hoje é dia de são joão

e quando eu era pequena muita gente achava que eu devia me chamar joana por ter nascido na véspera. minha mãe fazia minhas festas temáticas e eu detestava porque sempre só eu estava vestida de caipira com pintinhas no rosto e maria chiquinha. hoje penso que era uma delícia e um baita privilégio. só mesmo eu e são joão. meu irmão tinha esse lp do kleiton e kledir que eu adorava só por causa de uma outra música, mas acabava escutando tudo porque a tecnologia do controle remoto ainda não existia naquela época de 3 em 1, e acabei que gostava do lp inteiro. hoje essa música do são jõao vem bem a calhar! a foto é daqui.

22 de junho de 2011

amanhã é 23


você tem fome de que?

"There is something beautiful about the baking process. The way flour feels in your hands or the sound of eggs cracking on the edge of a bowl. Baking is a gathering of interesting materials, a mixed medium art piece of sorts, that ends in a cake instead of a canvas."
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eu tinha 17 anos quando sai de casa e me lembro bem que raras foram as vezes que havia usado o fogão de casa, a não ser pelas pipocas com chá das tardes osciosas e dos ovos mexidos com queijo e manteiga das sextas-feiras santas de bacalhau. minha mãe sempre foi uma baita cozinheira e nunca tive sequer a curiosidade de aprender. penso hoje, que talvez tivesse era medo de decepcioná-la, ou de viver à sua sombra, como uma cozinheira menor e medíocre. morando sozinha, inventei um strogonoff de carne moída terrível que é motivo de riso ainda hoje entre meus primos. e com o passar do tempo, fui aprendendo a cozinhar com a vida, com a necessidade, as vezes por mera curiosidade e as vezes por pura obrigação. com o nascimento do meu filho, aprendi na marra a fazer papinhas nutritivas, saudáveis e, diga-se de passagem, deliciosas. também fazia os almoços cotidianos, diariamente, e aí sim eu tinha que fazer malabarismos, com muita criatividade pra não enjoar e evitar o desperdício. a noite, já deitada, ficava imaginando qual seria o cardápio do dia seguinte, levando em consideração o que havia na geladeira e na despensa. era meio desgastante, mas acho que foi aí, bem nesse momento da vida, que eu aprendi a cozinhar de verdade, o problema é que ainda o fazia por obrigação e não por prazer. e daí que eu ainda não enxergava a mágica e a beleza disso tudo. hoje, me descubro interessada por receitas e acessórios de cozinha mais do que qualquer outra coisa. hoje, me descubro apaixonada por essa alquimia que transforma e por seus cheiros e sabores. hoje, um dos meus maiores prazeres é abrir uma garrafa de vinho tinto, colocar uma boa música e ir pra cozinha inventar. fico parecendo o ratinho do filme ratatouille e suas explosões de cores pra cada alimento que ele cheirava ou provava. e depois, fico observando as pessoas na primeira garfada e tento interpretar suas reações, pra saber se está bom, ou ruim, se está salgado demais ou de menos. e quando vem aquele 'hummmmmm' de delicioso eu fico toda cheia e digo 'fui eu que fiz'. nesse feriado prolongado não vamos viajar, mas eu já tenho destino certo. mais feliz está minha mãe que anda toda orgulhosa e me disse 'eu sabia minha filha, de uma laranjeira não podia sair um limão, só mesmo uma laranja'. concluo então, que realmente quem sai aos seus, não degenera! esse vídeo lindo e o texto aqui debaixo eu vi aqui.

pra quem você cozinha?

"Pode ser em casa para a família, pode ser em uma cozinha profissional, cozinhar é um ato de generosidade. Acredito naquela história de que comida da mamãe é melhor porque é feita com amor. O cozinheiro transfere sua energia em cada prato que faz, técnica e conhecimentos são fundamentais, mas o amor e cuidado na execução são ainda mais importantes.
Até por isso, um dos maiores questionamentos que tenho toda vez que estou criando um prato é: estou cozinhando isso para quem?
Pode parecer uma pergunta um pouco sem sentido, mas é uma questão importante. Muitas vezes os chefs, movidos pela pressão da crítica, pela empolgação de criar e pelo ego, esquecem do fundamental: o cara que está do outro lado – você, o cliente.
Não pensem que estou isento nessa história, tenho meu ego do tamanho do mundo, gosto do oba oba que uma receita ou técnica inusitada pode gerar, mas tento manter o foco. Quanto mais amadureço minhas ideias, mais observo que o que o cliente quer é comida gostosa.
O cliente não tem razão, ele é a razão da existência de qualquer restaurante, não interessa se a comida é de vanguarda ou da vovó, por mais que os prêmios e a mídia sejam importantes, inspiração mesmo é fazer quem come a sua comida feliz."
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texto daqui e foto daqui.

sigo sendo o mistério do planeta




"Vou mostrando como sou e vou sendo como posso.
Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos.
E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto.
E passo aos olhos nus ou vestidos de lunetas.
Passado, presente, participo sendo o mistério do planeta."
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em homenagem a um final de semana pra lá de bom e em ótima companhia!! as fotos são nossas.

o clarão é Deus

"Deus surgiu na minha vida aos 6 anos de idade, e chegou junto com o pecado. Filha de pais ateus, até então, eu não havia sido apresentada a uma coisa nem outra. Um dia colocaram-me num colégio de freiras no qual rapidamente fui atualizada sobre essas questões importantes da vida. Ali aprendi que algumas faltas eram mais graves que outras. Matar, por exemplo. Mas eu nunca matei ninguém... Ah, é? E, quando você caminha, o que acontece com todas aquelas formigas que vão sendo pisoteadas? Assustada, passei meses andando de cabeça baixa para evitar tamanho pecado. Trocaram-me de colégio.
Passou-se um ano, e surgiu o assunto da primeira comunhão. Você não vai fazer? Não sei, o que é isso? É para Deus te perdoar dos pecados. Ahn... Em casa, minha mãe tirava dúvidas a sua maneira: Deus é como Papai Noel, só existe para quem acredita nele. E ela sabia que eu já não acreditava. Assim, pulamos a primeira comunhão.
Aí minha mãe morreu, meu pai pirou, e por coincidência fui parar numa hospedaria para filhos de missionários luteranos americanos, espalhados pelo Brasil. Ali rezava-se antes de cada refeição, e, à noite, por uma hora de fervor, cantavam-se hinos de louvor a Cristo. Éramos 30 meninas e meninos, de 5 a 18 anos, cuidados por um casal que viera de Minnesota com a missão de manter a fé daqueles pirralhos custasse o que custasse. Meu caso deu certo trabalho. Eu não fazia parte da turma, não tinha fé alguma, e era imprescindível integrar-me às crianças cristãs antes que elas se integrassem a meus modos pagãos. Acontece que aquela gente era muito boa, e eu andava numa carência infinita. Então, com o amor que me dedicaram, demorou pouco para que eu me bandeasse de armas e bagagem, pensamentos e espírito para onde a seta luterana apontava. Assim, aos 14 anos, passei a viajar pelo Brasil uma vez por mês, dando testemunhos de minha conversão a Jesus em igrejas protestantes espalhadas pelo país. Aos 16, cansei dessa vida, discuti com o responsável da hospedaria e fui bater na porta de uma igreja. Católica. Você é padre, não é? Pois eu sou órfã, e não tenho onde morar. Padre Xico me convidou para morar na torre da igreja, e ali me instalei por um par de anos. No térreo ficava a sala de estar. O sacerdote morava no 1o andar, o segundo piso servia para hospedar bispos e monsenhores, e no terceiro ficava meu quarto. Certa vez aconteceu um show do Vinicius e Toquinho na cidade, e eu fui conferir. Ao final do espetáculo, fui cumprimentar os artistas, e Toquinho se ofereceu para me levar em casa. Quando pedi que estacionasse na porta da igreja, o moço não entendeu nada. Você mora com o padre? Moro. E você dá para o padre? Não, o padre é casto, e eu sou virgem - não dou para ninguém. As segundas intenções que levaram Toquinho a me acompanhar, tão gentilmente, até minha casa morreram ali. Anos depois, já atriz, eu contei essa história para ele, e ambos demos boas risadas.
A vida foi seguindo. Levou-me para a Europa, e dali para a Ásia, numa peregrinação que durou dois anos. Eu ia a pé, de carona, como desse - e ia conhecendo bem a gente local. Quando se viaja pobre, precisa-se das pessoas, da generosidade delas, de suas gentilezas. Nessa troca diária em que eu também tinha de estar disponível, conheci muita gente boa e simples. E gente simples tem religião. Pelas pessoas, e não por interesse em suas crenças, fui novamente levada a Deus. Agora Ele ganhava várias faces, e as formas de louvá-Lo eram múltiplas e sempre muito fervorosas. Assim, fui percebendo que Deus não dava a mínima se a gente queria chamá-lo de Buda, Maomé, Oxalá ou Jesus. Deus não cabia numa caixinha, nem na minha compreensão, e isso de certa forma me confortava.
Então, quando mais tarde a vida apertou e minhas pessoas começaram a morrer muito pela segunda vez - amigos, meu pai e meu irmão se mataram - e minha solidão precisava de um amor sobrenatural para sará-la, lembrei de Deus, e fui procurá-lo. Quando encontrei, Ele era um Deus maduro e generoso, que me curou por inteiro, e, como que para me separar definitivamente de todo mal, ainda me deu uma filha de presente. Eu que tentava havia dez anos, sem nenhum problema físico, só consegui engravidar quando virei uma pessoa completa, ou seja, de espiritualidade plena. Não vou contar, porque não cabe aqui, como se deram os milagres de minha vida, mas esse de minha filha aconteceu exatamente nessas circunstâncias.
O Deus que hoje reconheço tem a face feminina, é doce, tolerante, compreensivo e infinitamente bom. É Ele quem me orienta e me encaminha todos os dias em cada momento. Olhando para trás e lembrando de tantas ocasiões em que poderia ter desistido de tudo, mas não o fiz, percebo que sempre houve um clarão ao fim de cada túnel, e que essa luz dava sentido a todos os aspectos de minha caminhada.
Antes, apenas, eu não sabia que a luz tinha um nome. Hoje eu sei."
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texto linda da maitê proença e foto daqui.

17 de junho de 2011

ótimo final de semana a todos!!!


porque toda menina é uma princesa!

quando eu me revelar da forma mais bonita

'Queria aproveitar para fazer um elogio a mim, sim, chega de me detonar. Queria te dizer, sua escrotinha que dorme comigo todas as noites, que nenhuma das vezes em que eu cheguei perto da janela e fiquei na ponta dos pés, eu estava sendo sincera. Queria te dizer que, apesar de você se sentir imensamente sozinha de vez em quando, eu sou milhares, e todas essas milhares te acham a melhor mulher do mundo. Queria bater palmas pra todas as vezes em que você sacrificou o que você mais amava em nome de seguir a diante com o teu fígado e todas as vezes em que você ficou pequenininha para que ficar grande fosse ainda maior. Obrigada por nunca ter fugido de mim, obrigada por ter me encontrado, obrigada por estar aqui. Confie que agora, de dentro de mim, conquistar o mundo vai ser ridículo. Ah, e tem mais: sua bunda até que é bonitinha, mas o resto é um arraso. Hoje eu acordei nervosa e irritada, daí parei e pensei: chega de se boicotar minha filha, tá na hora de você ser muito feliz. Gente, tá na hora da gente ser muito feliz. Primeiro porque somos de verdade, depois porque somos filhos de Deus e, pra terminar, porque existe escova progressiva!'
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texto da tati bernardi e foto daqui.

13 de junho de 2011

sempre ele

'Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo,
eu tiro um arco-íris da cartola.
E refaço. Colo. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior.
Maior que todo mal que existe no mundo.
Maior que todos os ventos contrários.
É maior porque é do bem.
E nisso, sim, acredito até o fim.'
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texto de caio fernando abreu e foto daqui.

sick and tired

'Sem tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em lugares onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte… Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.'
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texto de rubem alves e foto com frase de cazuza daqui

11 de junho de 2011

ótimo final de semana a todos!!!

é preciso saber viver

'Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto dura.'
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texto da cora coralina e foto daqui.

10 de junho de 2011

sobre o amor e seu trabalho silencioso



o amor e suas interpretações nas palavras de várias pessoas por diversos lugares do mundo. um pouquinho longo, mas lindo, lindo! mais sobre o projeto você vê aqui.

here you are, caterpillar girl

'O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
— Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?
A moça se lembrava:
— A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
— Antônia, você parece uma lagarta listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
— Antônia, você é engraçada! Você parece louca.'
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texto de manuel bandeira e colagem daqui. pra ler escutando the cure!