17 de outubro de 2013

e ponto final


os três textos abaixo falam sobre o luto. publiquei tudo de uma vez só, assim sem nem pensar, numa espécie de exorcismo. fazem parte de um caminho longo, difícil e solitário pelo qual tenho passado, mas que precisa chegar ao fim. ando carregando bagagem demais e já é o momento de me desapegar da minha dor, deixá-la ir e me libertar. muita saudade disso aqui, muita vontade de voltar a ver a vida colorida... 

o stress do luto


"Pensar sobre a morte de alguém querido é um tanto quanto desconfortante. Mas, visto que a maioria das pessoas já passou ou passará por uma experiência dessas na vida, é importante aprender a lidar com esse tema tão delicado. “Quando alguém perde um ente próximo, a resposta é de ansiedade, protesto emocional e dor. Para que possamos entender melhor esse processo, é preciso discutir o assunto de forma mais natural”, afirma Aroldo Escudeiro,psicólogo e coordenador da Rede Nacional de Tanatologia, ciência que estuda as perdas. Segundo o especialista, o luto é um processo psicológico de longo prazo cujo limite de tempo deve ser respeitado para que ocorra o desapego da figura que se foi e o reequilíbrio psíquico de quem ficou. “Para evitar um stress mais intenso no futuro, deve-se estimular que o indivíduo viva o luto em vez de tentar tirar esse momento dele como fazem muitas pessoas. O processo de luto pode ser dividido em quatro etapas. Primeiro há o entorpecimento, período marcado por explosões de aflição, negação e raiva intensas. Depois acontece a fase de anseio e busca da figura perdida, na qual a pessoa de luto interpreta sinais e sons como indícios de que o outro voltou.
Posteriormente, há a fase da desorganização e desespero, caracterizada pelas oscilações de humor. Por fim, ocorre a reorganização, ou seja, a pessoa reavalia a vida e se torna mais confiante e independente. Apesar do estabelecimento das fases, não há como definir o prazo de duração do luto. Sua superação depende de uma série de fatores, entre eles, a natureza da relação entre o morto e quem está sofrendo o luto, o antecedente histórico entre os dois, a forma da morte e as variáveis de personalidade da pessoa que ficou. “O sofrimento de uma família cujo parente morreu após ter ficado durante meses em uma cama de hospital é diferente do de pais que perdem repentinamente o filho em um acidente”, exemplifica Escudeiro. Para ajudar o aceleramento desse processo, o especialista faz algumas recomendações. Antes de mais nada, é preciso enfrentar esse momento, de preferência sem a ajuda de medicamentos. “Sei que é muito doloroso ver a pessoa morta, porém isso é extremamente importante para que o luto caminhe. É preciso que a morte se materialize na consciência ou, do contrário, haverá mais sofrimento no futuro.” Além disso, o psicólogo afirma que é preciso trabalhar a dor da perda expressando as emoções. “É essencial falar sobre aquilo, chorar e não guardar todo o sofrimento para si”. O mesmo processo deve ocorrer com as crianças. Segundo o psicólogo, muitos pais não conversam sobre o assunto com os filhos, impedindo que eles cresçam emocionalmente quando se deparam com uma perda. “Dizer que a mãe virou uma estrela ou o avô foi viajar pode até afastar o sofrimento do luto no momento, mas gera um stress muito maior quando a criança descobrir a mentira”. A melhor coisa, diz Escudeiro, é falar a verdade com naturalidade e na linguagem próxima ao universo infantil. Passado o choque inicial da perda, as pessoas envolvidas devem, à medida do possível, voltar à rotina. Não é aconselhável, por exemplo, que se mude de casa depois da morte de um parente que morava nela. “Quando uma mulher fica viúva, a tendência dos filhos é tirá-la do local onde morava com o marido. Isso é errado. Ela tem que se acostumar no lugar sem ele. A casa do filho, onde muitas vezes ela é levada, não é a casa dela”. Por outro lado, há casos de famílias que mantém por meses ou até por anos o espaço da pessoa que morreu intacto. Para o especialista, não é bom se desfazer de tudo no dia seguinte, mas também não é aconselhável manter aquilo para o resto da vida. “Quando há uma ansiedade em conservar o quarto da pessoa ou permanecer grudado a uma peça de roupa dela, por exemplo, o luto não acaba porque é como se o enlutado quisesse alimentar uma esperança ilusória de que a pessoa continua viva.” Mesmo parecendo uma dor sem fim, é possível superar o luto e restabelecer novos planos de vida. “Não há como comparar dores e lutos, mas há como refletir sobre a morte e ter em mente que ela é maior educadora que existe, pois faz com que deixemos de apreciar o lado material para valorizar o que há de mais importante na vida: os sentimentos e o momento presente”, conclui. 
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minha mãe ficou meses no hospital e meu pai, foi pra uti pela manhã e morreu a tarde. duas mortes diferentes, dois tipos de dor, dois tipos de luto... outro texto da mariana teodoro, no mesmo site 'surreal' do abílio diniz. a foto não me lembro de onde peguei.

trauma e superação


"Só quem superou a dor provocada por um trauma sabe o quanto é difícil reconstruir a vida quando dar a volta por cima parece algo impossível. Perda de uma pessoa querida, separação, doença, acidente, assalto, sequestro, abuso sexual e catástrofe natural, seja qual for o agente causador do sofrimento, ele pode desencadear sequelas psicológicas devastadoras em suas vítimas. Mesmo assim, é possível transformar uma experiência traumática em apenas uma história de superação.
“Além de provocar sofrimento de magnitude e duração variáveis, o trauma psicológico pode afetar depreciativamente tanto a qualidade de vida quanto o funcionamento cognitivo, a saúde física e as relações interpessoais”, afirma o psicólogo Julio Peres, doutor em Neurociências e Comportamento pela USP e autor do livro “Trauma e Superação: o que a Psicologia, a Neurociência e a Espiritualidade ensinam” (editora Roca). Entre os diversos efeitos causados por um evento traumático estão: confusão mental, desorientação temporal, descrença, ansiedade, desamparo, desespero, raiva, negação, tristeza, conflitos nas relações sociais, além dos prejuízos físicos como abuso de álcool e drogas, alterações cardiovasculares, fraqueza e insônia.
O especialista explica que não há como dizer que uma experiência traumática é pior que a outra, uma vez que um trauma pode ficar temporariamente indefinido no aparelho psíquico da vítima. “É como se as reciprocidades neurais estivessem impedidas de reconhecer e transpor o evento traumático do nível da sensação e da percepção para o registro do simbólico e do verbal”. Assim, a caracterização de um trauma depende da percepção do indivíduo, que é influenciada pela subjetividade. “Por isso, não podemos dizer que uma pessoa que amputou um dedo sofre menos do que aquela que amputou as duas pernas. A disposição e o temperamento influenciam significativamente na continuidade ou redução do sofrimento”. As vítimas que se entregam ao isolamento, por exemplo, certamente ficam mais vulneráveis a sofrer uma depressão do que as mais positivas que optam por buscar ajuda. Para Peres, por ser um estímulo superior a capacidade de processamento cognitivo do indivíduo, o trauma, geralmente, merece atenção e cuidados terapêuticos específicos. Mas, nada impede que a própria pessoa dê um importante passo para a superação, o de resgatar a esperança. “Estudos sobre esperança destacam importantes ganhos como a potencialização da motivação e da confiança para o enfrentamento de dificuldades graves”, ressalta.
O apoio espiritual ou religioso também pode ajudar no recomeço. “Buscar conforto na religiosidade, respeitando suas crenças, pode aliviar o sofrimento”, afirma o especialista. Além disso, outras recomendações se colocadas em práticas podem acelerar o processo de superação. Uma delas é evitar a autovitimização. “O que você diz para si e para os outros sobre o que ocorreu pode tanto aliviar quanto exacerbar o sofrimento. A fixação em diálogos internos do tipo “Isso é injusto” ou “Não poderia ter acontecido comigo” dificulta a busca de recuperação e favorece a continuidade da dor”.
Outro bom exercício é buscar exemplos alheios de superação para reforçar a ideia de que a própria dor também poderá ser sanada. Falar do sofrimento de forma adequada e com as pessoas certas é mais uma atitude sugerida pelo especialista. Construir novos objetivos de vida e engajar-se em um novo projeto também é essencial. Além disso, é extremamente importante não reagir ao trauma criando outro. “Não se deve responder a uma situação de violência gerando mais violência. Quem deseja matar o assassino do filho, por exemplo, pode ficar mais traumatizado com seu próprio ato, que não aplaca a dor psicológica, mas pelo contrário a enfatiza”.
Uma vez em que há a superação do trauma, pode-se dizer que ocorreu a resiliência. Na física, o termo se refere a possibilidade de um material voltar à forma normal depois de sofrer uma deformação. Para a psicologia, é a capacidade de tirar lições positivas após passar por uma experiência negativa. De acordo com Peres, por meio da resiliência, é possível reencontrar sentido na vida e ter a certeza de que se pode aprender e crescer com as experiências ruins. “A superação ocorre quando uma aliança de sofrimento e aprendizado é construída. Assim, a conclusão do processamento de um passado traumático pode libertar as pessoas para viverem no presente”, conclui."
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ando buscando a resiliência, mas essa, é uma tarefa das mais árduas que já tive em meu percurso. achei este texto da mariana teodoro , em um site bem 'surreal' do abílio diniz e a foto não me lembro de onde.

o luto é inevitável


"A morte é a experiência mais angustiante que passamos. Mais cedo ou mais tarde, iremos sofrer a perda de alguém próximo, pode ser um amigo, um amor, um parente próximo. Na nossa cultura, falamos e pensamos muito pouco acerca da morte. Por isso, não aprendemos a lidar com o luto: como nos faz sentir, o que devemos fazer, o que é "normal" acontecer - e de o aceitar. Vou tentar aqui esclarecer algumas das características principais do luto como, às vezes, podemos ficar presas a ele e a ajuda que poderemos e deveremos procurar.
O luto é um processo que ocorre imediatamente após a morte de alguém que amamos. Não é um sentimento único, mas sim um conjunto de sentimentos e emoções que requer um tempo para serem digeridos e resolvidos e que não pode ser apressado, cada um de nós tem um "tempo emocional" que deve ser respeitado. Apesar de sermos indivíduos com características próprias, a forma como vivenciamos o luto é muito semelhante na maioria.

Enxurrada de emoções
Nas horas e dias seguintes à morte, a maioria das pessoas passa pela fase da negação ou descrença, ficando totalmente "atordoada", como se não pudesse acreditar no ocorrido. Mesmo quando a morte era esperada, este sentimento pode surgir, mesmo que seja com menor intensidade. Este sentimento de torpor ou dormência emocional, como se estivéssemos anestesiados, pode ajudar a levar a cabo todos aqueles procedimentos burocráticos inerentes a este processo, mas pode tornar-se num problema se continuar a subsistir. Ver o corpo da pessoa falecida pode, para alguns, ser uma forma de começar a ultrapassar isto e começar a superar a perda. Da mesma forma, para algumas pessoas, o velório e o enterro podem ser situações onde a realidade começa a ser encarada. Apesar de ser difícil lidar com estas situações, o fato é que elas constituem um modo de dizer adeus àqueles que amamos. Estes acontecimentos podem parecer demasiadamente dolorosos, mas o fato é que fugir a eles pode trazer problemas mais tarde, muitas vezes, provocando um certo arrependimento.
Depois da fase de "negação", poderá surgir um período de grande agitação, ansiedade e ânsia pelo que foi perdido. Surge o sentimento de querer encontrar essa pessoa seja de que maneira for, mesmo que tal seja impossível. Por isto, nesta fase a pessoa começa a não conseguir relaxar ou a concentrar-se e o sono pode ser muito agitado. Os sonhos que surgem nesta altura podem ser muito confusos, pode surgir o medo de dormir sozinho ou no escuro.
Algumas pessoas chegam mesmo a "ver" quem perderam, na rua, em casa. Com muita freqüência, a pessoa em luto sente-se muito zangada e revoltada contra médicos e enfermeiros que não conseguiram impedir a morte que agora lhe pesa, contra os amigos e familiares que nunca deram o seu máximo. É comum também sentir raiva da pessoa que morreu, que foi embora e assim a deixou, abandonou.

Culpa
Vamos falar de outro sentimento comum: a culpa. Quando se perde alguém, é comum começarmos a pensar em tudo aquilo que podia ter sido feito ou dito para aquela pessoa ou ainda o que podia ter feito para impedir essa morte. Claro que a morte é um acontecimento que está além do controle seja de quem for e a pessoa em luto deve ser lembrada disso o tempo todo, se for necessário.
A culpa também pode surgir depois de se sentir alívio pela morte de alguém que nos era muito querido, mas que sabíamos estava a sofrer.
Este sentimento é normal, compreensível e muito comum.Essas fases podem ser seguidas rapidamente de períodos de grande tristeza e depressão, retiro e silêncio. Estas mudanças súbitas de emoções podem deixar amigos e familiares confusos, mas faz parte do processo natural de luto. Crises de choro e angústia intensa podem surgir a qualquer momento.
Algumas pessoas podem não conseguir perceber estas crises ou ficar sem saber o que fazer quando elas acontecem. Poderá haver uma tendência da parte da pessoa em luto para evitar as outras pessoas, mas isto pode trazer problemas futuros e, por isso, será melhor que volte à sua "vida normal" o mais rapidamente possível. Durante este período, pode parecer estranho aos outros que a pessoa em luto passe muito tempo sentada, sem fazer nada, mas o fato é que ela estará a pensar em quem perdeu, recordando constantemente os bons e maus períodos que passaram juntos. Esta é uma fase silenciosa, mas essencial à resolução do luto.
À medida que o tempo passa, a angústia intensa resultante do luto começa a desaparecer. A depressão atenua-se e será possível, finalmente, começar a pensar em outros assuntos e até em novos projetos. É importante salientar que o sentimento de perda nunca desaparecerá por inteiro. Depois de algum tempo, deve ser possível sentir-se de novo "completo", apesar de faltar sempre uma parte de si que nunca será substituída. Quando sabemos disso e admitimos esse processo será menos dolorido.

Como ajudar nesse momento?
A família e os amigos podem ajudar a pessoa em luto passando um tempo com ela demonstrando que estão presentes para o que for necessário neste período de dor e tristeza. É importante que a pessoa em luto, se necessitar, tenha alguém com quem chorar e falar sobre a perda sentida, sem que o "amigo" fique dizendo para se recompor e refazer a sua vida. Nesse momento, o que ela precisa e falar e ser ouvida, pois o "falar" nessa fase é "terapêutico".
Com o tempo, a pessoa em luto se restabelecerá, mas não antes de ter chorado tudo, de ter falado sobre a pessoa e a perda.
Não devemos esquecer que datas importantes (o dia do aniversário, do casamento, etc.) poderão ser particularmente difíceis de reviver e pôr a pessoa em luto a participar ativamente na preparação de tais celebrações poderá ajudá-la a não se sentir tão sozinha. É importante dar o tempo necessário para que a pessoa em luto possa superar sua dor, pois de outra forma poderá vir a ter problemas no futuro.

Ficar "preso" ao luto
Há pessoas que parecem não passar pelo processo de luto, que não choram no velório ou no funeral e até evitam falar da pessoa que perderam. São pessoas que voltam à sua vida "normal" e retomam a rotina muito rapidamente. Esta pode ser sua forma normal de lidar com a perda sem conseqüências negativas, mas outras pessoas poderão, ao contrário, sofrer sintomas físicos e desencadear um processo depressivo. Algumas pessoas podem não ter a oportunidade de passar pelo processo de luto da melhor forma, uma vez que têm de continuar a sua vida profissional ou familiar, não tendo tempo de "passar" pelo luto.
Algumas pessoas podem iniciar o processo de luto, mas permanecer nele sem o resolver. Nestes casos, a dor e a angústia por quem se perdeu mantêm-se e podem mesmo passar anos sem que a situação seja realmente resolvida. Nestes casos, a pessoa pode continuar a não aceitar que perdeu quem faleceu, mantendo-se na fase de descrença referida atrás ou, por outro lado, só conseguir pensar em tal pessoa, mantendo, por exemplo, o quarto da pessoa falecida intacto e como uma espécie de local de culto.
Ocasionalmente, a depressão que ocorre com todo e qualquer luto pode agravar-se ao ponto de a pessoa deixar de se alimentar e até pensar em suicídio. Em todos estes casos será obviamente necessária ajuda profissional especializada.
Se você considera que pode estar em risco de sofrer desta incapacidade de resolução do luto, ou conhecer alguém que pode estar nesta situação e considera importante partilhar isso com alguém exterior a família ou amigos, pode buscar auxilio de um profissional, de um psicólogo para superar essa fase.
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texto da kátia horpaczky que eu li aqui e foto daqui.

19 de abril de 2013

eu não tenho mãe. eu não tenho pai

'Eu não tenho mãe há muito tempo. Eu não tenho mão. Eu não tenho quem me sugue o catarro do nariz. Eu não tenho peito. Eu não tenho quem me conserte as maçanetas da porta. Eu não tenho boca. Eu não tenho quem me defenda numa carta comprida. Eu não tenho pé. Eu não tenho quem me tire a cera do ouvido com uma pinça. Eu não tenho olho. Eu não tenho quem me conduza ao balé. Eu não tenho ouvido. Eu não tenho quem me passe o dedo delicadamente sobre o desenho das sobrancelhas. Eu não tenho sobrancelha. Eu não tenho quem me pendure na geladeira as garatujas. Eu não tenho unha. Eu não tenho quem me penteie cabelo com creme rinse. Eu não tenho perna. Eu não tenho quem me resolva os problemas do banco em outro país. Eu não tenho cotovelo. Eu não tenho quem me acorde cedo com a voz rouca. Eu não tenho rim. Eu não tenho quem me segure a mão para atravessar a avenida. Eu não tenho cílios. Eu não tenho quem me faça macarrão. Eu não tenho joelho. Eu não tenho quem me envie um peixe pelo correio. Eu não tenho umbigo. Eu não tenho quem me diga se mamei ou não. Eu não tenho costela. Eu não tenho quem me arrume a mala. Eu não tenho bunda. Eu não tenho quem me guarde os registros médicos. Eu não tenho calcanhar. Eu não tenho quem me ensine a coser. Eu não tenho tíbia. Eu não tenho quem me olhe com doçura. Eu não tenho bochechas. Eu não tenho quem me passe uma pomada nas costas. Eu não tenho costas. Eu não tenho quem me envie um cartão postal colorido com desenhos em hidrocor. Eu não tenho queixo. Eu não tenho quem me guarde o primeiro dente de leite perdido. Eu não tenho faringe. Eu não tenho quem me cubra as capas dos livros. Eu não tenho flanco. Eu não tenho quem me costure as cortinas. Eu não tenho língua. Eu não tenho quem me segure enquanto sopro as velas de aniversário. Eu não tenho cabelo. Eu não tenho quem me cante uma canção de ninar. Eu não tenho pálpebra. Eu não tenho quem me explique as placas de trânsito. Eu não tenho gengiva. Eu não tenho quem me ensine a dobrar camisas. Eu não tenho omoplatas. Eu não tenho quem me vista um casaco. Eu não tenho corpo. Eu não tenho quem me conheça tanto. Eu não tenho pulso. Eu não tenho mãe há muito tempo. Eu não tenho mãe.'
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além de não ter mãe, eu também não tenho pai. texto que eu li aqui e foto daqui.

14 de março de 2013

para meu pai


"A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive. Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão. Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um campo visual, não tinha limite. Tal qual outras coisas preciosas, ela não se media pela extensão mas pela intensidade. Louvemos e contemos no número dos felizes os que bem empregaram o parco tempo que a sorte lhes emprestou. Bom não é viver, mas viver bem. Ele via a luz do dia, teve amigos, amou e floresceu. Às vezes anuviava-se o seu brilho. Às vezes era radiante. Quem pergunta quanto tempo viveu? Viveu e ilumina nossa memória."
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texto de antônio cícero e foto daqui.

27 de fevereiro de 2013

a vida em preto e branco

logo depois que minha mãe morreu, consegui expressar, de alguma maneira, a dor que eu sentia... mas agora, com meu pai, eu me calei. ando numa tristeza só.

7 de fevereiro de 2013

me sinto repleta de vazios...

um dia, eu adoeci de palavras

"Se um dia você adoecer de palavras, coisa que acontece com todo mundo, e ficar farta de ouvi‑las, de dizê‑las; se qualquer uma que escolher lhe parecer gasta, sem brilho, deficiente; se sentir náusea ao ouvir um “horrível” ou “divino” sobre qualquer assunto, não será com uma sopa de letras, claro, que vai se curar. Deve fazer o seguinte: cozinhar um prato de espaguete al dente e temperá‑lo com o molho mais simples — alho, azeite e pimenta vermelha. Sobre a massa já misturada a esses ingredientes, por mais que a etiqueta o condene, rale uma camada de queijo pecorino. Do lado direito do prato fundo cheio de espaguete assim temperado, ponha um livro aberto. Do lado esquerdo, ponha um livro aberto. À frente, um copo cheio de vinho tinto seco. Qualquer outra companhia não é recomendável. Vire ao acaso as páginas de ambos os livros, mas os dois deverão ser de poesia. Só os bons poetas nos curam do fastio de palavras. Só a comida simples e essencial nos cura da saturação da gula."
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outra receita do livro de receitas para mulheres tristes do escritor colombiano hector abad com foto daqui.