30 de julho de 2012

amo-te por todas as razões e mais uma

"Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu."
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trecho do livro 'ano comum' do escritor português joaquim pessoa que eu li aqui. a foto é daqui.

25 de julho de 2012

acabei de me vestir, sem nenhum lugar pra ir...


"Se eu vestia a jaqueta, Allon me vestia. Ele estava lá nos puimentos do cotovelo, puimentos que no jargão técnico da costura são chamados de "memória". Ele estava lá nas manchas que estavam na parte inferior da jaqueta; ele estava lá no cheiro das axilas. Acima de tudo, ele estava lá no cheiro. Foi assim que comecei a pensar sobre roupas. Eu lia sobre roupas e falava aos amigos sobre roupas. Comecei a acreditar que a mágica da roupa está no fato de que ela nos recebe: recebe nosso cheiro, nosso suor; recebe até mesmo nossa forma. E quando nossos pais, os nossos amigos e os nossos amantes morrem, as roupas ainda ficam lá, penduradas em seus armários, sustentando seus gestos ao mesmo tempo confortadores e aterradores, tocando os vivos com os mortos. Mas para mim, elas são mais confortadoras que aterradoras, embora eu tivesse sentido ambas as emoções, pois eu sempre quis ser tocado pelos mortos, eu sempre quis que eles me assombrassem. Eu tenho até mesmo a esperança de que eles se levantem e me habitem: e eles literalmente nos habitam através dos hábitos que nos legam. Eu vesti a jaqueta de Allon. Não importa quão gasta estivesse, ela sobreviveu àqueles que a vestiram e, espero, sobreviverá a mim. Ao pensar nas roupas como modas passageiras, nós expressamos apenas uma meia-verdade. Os corpos vêm e vão: as roupas que receberam esses corpos sobrevivem. Elas circulam através de lojas de roupas usadas, de brechós e de bazares de caridade. Ou são passadas de pai para filho, de irmã para irmã, de irmão para irmão, de amante para amante, de amigo para amigo. As roupas recebem a marca humana.  Ela dura, mas é mortal. Como diz Lear, de forma desaprovadora, a respeito de sua própria mão: "ela cheira à mortalidade". É um cheiro que eu adoro. É o cheiro pelo qual uma criança se apega a seu cobertor, uma peça de roupa, um ursinho de pelúcia, seja lá o que for. Roupa que carrega as marcas do dente, do encardimento, da presença corporal da criança. Roupa que se deteriora: um braço do ursinho que se parte, a bainha que se torna puída. Roupa que duna e conforta, roupa que, como qualquer criança sabe, é particular."
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quando minha mãe morreu, eu e minha irmã decidimos, a princípio, doar todas as suas roupas, achando que assim, poderíamos nos livrar da dor que viria, mandando pra longe todo e qualquer vestígio dela, num pensamento inocente de que isso bastaria. quando chegamos na casa, que hoje é só do meu pai, nos deparamos com aquele armário de roupas, ainda dispostas exatamente como ela havia deixado: blusas no cabide, peças mal dobradas na gaveta, mudas usadas e separadas pra serem usadas novamente em algum momento que não chegou, meias dentro dos sapatos. nos deparamos ali com um dos mundos mais íntimos de minha mão e imediatamente mudamos nossos planos. começamos então a experimentar todas as peças, e a cada uma delas, lembrávamos de uma história pra contar. 'essa ela adorava' 'essa ela vestia sempre' 'essa ela usou no aniversário, na viagem, no final de ano, ou qualquer outra ocasião especial'. e assim passamos alguns dias, entre lembranças e risadas, tristezas e choros, dividindo quase todas as peças de roupa da minha mãe, como se cada uma delas fosse um pedaço que a manteria conosco. todas ainda guardavam seu cheiro e era como se fossem imaculadas. de volta a minha vida, comecei a usar essas roupas todos os dias,  uma peça por dia. me sentia abraçada, envolvida, protegida. fechava os olhos e era como se ela ainda estivesse aqui. passadas algumas semanas, eu estava perdida num processo de não-aceitação de tudo, e como que querendo me livrar de toda aquela dor, lavei todas as roupas, até as que ainda não haviam sido usadas, mas que também carregavam, por convivência, o cheiro que exalava seu guarda-roupas. me arrependi poucos dias depois. me arrependi imensamente e pra sempre. tinha mesmo acabado. pouco tempo depois achei um pijama, que se escondeu de mim no dia da matança e usei o pobre até quase encardir. minha mãe ainda me embalava pra dormir. mas tive de lavá-lo recentemente por motivos óbvios. passados oito meses, não uso mais as roupas de minha mãe com tanta frequência. e toda vez que uso é um acontecimento. mesmo sem o cheiro, ainda pertenceram a ela e por isso são especiais, carregam uma história. as vezes uso quando me sinto fraca, ou quando por algum motivo, preciso me sentir mais forte. uso quando quero homenageá-la, ou quando a saudade aperta mais. em dias de chuva eu tenho abrigo numa capa linda e é como se ela estivesse ali de braços dados, andando comigo e carregando um guarda-chuvas sobre mim. e quando estou alegre, carrego ela comigo e é como se ainda ríssemos juntas até quase fazer xixi nas calças, como sempre fazíamos. mas isso tudo só serve como lenitivo pra dor. porque pra saudade, não existe cura. o texto lá de cima é um trecho do primeiro capítulo do livro o casaco de marx de peter stallybrass que eu comecei a ler e a foto é daqui.

eu acho que vi um gatinho


foto linda daqui.

conta até 10 e respira...



não me lembro de onde peguei a foto...

19 de julho de 2012

sonzinho de quinta


'angels' é o primeiro single do novo álbum do the xx que sai em setembro.. lindo!

trem das cores
















 

a casa da isabelle tuchband saiu no the selby e eu que já andava enlouquecida de vontade de ter um quadro dela, agora ando querendo também uma casa linda igual a dela...

justo a mim me coube ser eu!

"Toda vez que minha avó paterna me dizia que o molde em que fui feita fora quebrado quando nasci, eu achava que ela estava me elogiando. Acreditava que somente eu era “única” no mundo. Aos poucos, fui percebendo meu engano. 
Primeiro, porque, em vez de me tornar diferente, o fato de ser uma criatura única era o que me igualava a todos os seres humanos. Entendi que é parte da nossa condição humana sermos indivíduos exclusivos. Dela ninguém escapa. Em segundo lugar, porque essa exclusividade – recebida com meu nascimento – não me foi dada assim de mão beijada. Nem veio pronta nem tinha um manual. Ela se parece com aquelas massinhas de modelar que, quando a gente ganha, ganha só a massa, não a forma, e o resultado é sempre o fruto de um longo processo de faz e desfaz. 
Cedo percebi que jamais teria sossego e que teria muito trabalho. Típico presente de grego, uma armadilha. Encontrei eco para o meu espanto nas palavras da Mafalda, a famosa personagem de Quino, o cartunista argentino, no momento em que ela diz: “Justo a mim me coube ser eu!”. Ser quem só a gente mesmo pode ser é quase uma desolação. Quem eu sou e deverei ser? Minha individualidade é um mistério. 
Levei muito tempo para entender que minha exclusividade não está simplesmente em mim, na minha cor de olhos ou nos meus talentos mais especiais. Ela está sempre lançada adiante de mim como um desafio, como um destino a que tenho de chegar, como uma história que tem de ser vivida. Minha exclusividade – eu mesma – virá apenas quando eu puder afirmar que a história que vim realizando só eu – e ninguém mais – poderia tê-la vivido. 
É a isso que a personagem Amparo, no filme de Almodóvar “Tudo Sobre Minha Mãe”, se refere quando afirma que ela é tanto mais autêntica quanto mais perto estiver daquilo que projetou para si mesma. Fala com orgulho e alegria, revelando, assim, que desvendou o mistério que envolve o problema de ser quem somos: autenticar nossa biografia. Avalizá-la. 
Onde estou, senão no rastro da história que venho deixando atrás de mim, naquilo que vim fazendo e dizendo? Onde estou, senão nessa biografia que realizo e atualizo a cada instante por meio das minhas decisões e do meu empenho? Hoje não importa mais se sou diferente dos outros, mas se faço alguma diferença neste mundo."
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texto de dulce critelli (terapeuta existencial e professora de filosofia da PUC-SP, e coordenadora do existentia - centro de orientação e estudos da condição humana) que eu li aqui e foto daqui.

16 de julho de 2012

assim como tu, mais ninguém...


'Num mundo cheio de "it girls", existem as “normal girls”. Ainda são raras, mas já podem ser encontradas nas principais capitais, sempre misturadas com outras normal girls, andam em grupos e ainda não viraram tão mainstream a ponto de você reconhecer uma de longe. São pessoas normais, o que é anormal. Dormem de maquiagem quando estão cansadas e só vão à farmácia para comprar remédio, ou xampu, quando o seu xampu baratinho acaba. Nunca fazem as unhas porque esquecem ou porque estavam sem tempo. 
Parece que usam mais metrô do que taxi e que marcam encontros com as amigas em qualquer restaurante barato, onde tentam gastar pouco para ter mais dinheiro para o fim de semana. Também porque estão juntando dinheiro para viajar na virada do ano ou pra sair do aluguel. 
Seus celulares são Android e ouviram falar em Instagram, mas não viram uma função pra ele. Quando vão para baladas tiram fotos com suas câmeras digitais e enfrentam filas para entrar, pagam o preço normal, ficam felizes se ganham um drink grátis e não conhecem muito bem as músicas que o DJ toca. Ser DJ para elas é uma profissão muito complexa, que admiram muito e jamais tentariam. 
Comem carboidrato a noite e almoçam no Burger King quando querem. H&M para elas é uma loja barata, bem divertida, e nunca ouviram falar em Sephora ou BB Cream. Gostam de ficar bonitas, mas não fazem ideia que o rosa está na moda. Quando entram na Zara e veêm vestidos estampados dão risada com um pouco de vergonha alheia e nunca leram a Vogue Paris. 
Só fazem babyliss no salão quando tem um casamento para ir. Mas aí se arrependem porque acham que ficaram com cara de tia avó. Normal girls acham casamento meio cafona, mas adoram quando suas conhecidas casam pra poder ir na festa de graça e ver os amigos do noivo de terno. Nunca pensaram se vão casar um dia, primeiro elas gostariam de arrumar um emprego melhor, com carteira assinada. 
Normal girls saem sem corretivo na rua, compram bolsa pela praticidade do que vai caber dentro, sempre usaram tênis porque não machuca o pé, não fazem ideia de quem seja Isabel Marant. Nunca ouviram falar em Freja Beha, mas acham a Gisele bonita, apesar de achar que ela ainda namora o Leo di Caprio. 
Elas tem 148 seguidores no twitter e experimentaram batom vermelho uma vez, semana passada pra ser mais precisa. 
Acham maxicolares engraçados, mas não sabem que eles chamam maxicolares e nunca pendurariam aquilo, daquele tamanho, no pescoço. Jamais gastariam mais de R$ 20 em um brinco, porque sabem que no próximo fim de semana podem esquecer uma argola dourada na casa de um menino que conheceram numa pista de hip hop. 
Os olhos das normal girls brilham quando se fala em it girls, suspiram, pensam na Blake Lively, na fulaninha do momento, aquela que fez um filme que não lembram agora o nome, mas viram em uma revista. O sonho das normal girls é ser uma it girl. Porque as normal girls são sempre únicas, se acostumaram com seus cabelos, compram as roupas pelo seu gosto e nunca percebem o quão legais são, então sonham em ser iguais a todo mundo, mais uma it girl com a pele cintilante saída da forma fake luxuosa. 
Mas logo depois que pensam nisso, acabam se distraindo, se preocupam com o futuro, marcam encontros na saída do metrô, estudam para orgulhar seus pais… e então a vida segue para as normal girls, luxo pra elas é voltar pra casa de taxi depois da meia noite. Mal sabem elas que são o que existe de mais moderno e “trendy” e que não demora muito para as it girls desejarem ser normais.'
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texto da jana rosa pro petiscos e foto daqui.

2 de julho de 2012

nós, os exibicionistas


'Prossigo em tratamento, tentando me curar do vício e da intoxicação digital. Ser minha própria médica barateia o processo. No bom e no mau sentido. 
Li o livro de autoajuda de Daniel Sieberg chamado "The Digital Diet". Comprei on-line. Consegui me apropriar de alguns conselhos e minha produtividade aumentou. Mas não todo dia, porque tenho recaídas.
Não toco no telefone quando estou dirigindo. Proibi a entrada de aparelhos com acesso à internet no quarto de dormir. Agora procuro não admitir o telefone sobre a mesa de refeições. Mas nem sempre consigo. Quando estou acompanhada é mais fácil. O olhar dos outros me ajuda. Quando estou sozinha é quase impossível. Deixo a comida esfriar e nem sinto o sabor, entretida com algo alheio à refeição.
Nos cafés de San Francisco, como o Nook da esquina, todos parecem se comportar como eu: todos estão sozinhos com suas máquinas, cada um em sua mesa, deixando as relações virtuais substituírem as relações reais. O que estaríamos fazendo, se não fosse a internet?
Imagino menos pessoas sozinhas nesses cafés, à exceção dos escritores, claro. Acho que estaríamos espiando uns aos outros com mais atenção. Espiaríamos pessoas de verdade, não os clones marqueteiros de si mesmos que povoam o Facebook.
Eu também tenho clones. Nas últimas semanas, investi tempo cancelando assinaturas de boletins por e-mail, alertas de notícias e de redes sociais. Tentei reduzir ao essencial, mas confesso que esse essencial continua muito inchado. Julgo pela minha angústia. Julgo também pelo meu fracasso em manter a leitura dos e-mails em dia.
Desprezei o conselho de baixar softwares para monitorar quanto tempo gasto com cada atividade on-line. Achei que usar mais tecnologia para usar menos tecnologia seria um contrassenso. Mas admito que outros possam se beneficiar com a estratégia.
A água vitaminada que tomo agora para me hidratar neste deserto traz a seguinte mensagem. "Por que checamos e-mails e, um minuto depois, checamos de novo? Por que a gente olha para o nosso telefone celular sem nenhuma razão? Ele não vibrou nem tocou. Bem, enquanto você está fazendo isso, por que não experimentar esta bebida? Ela contém cafeína para ajudar o foco mental. Agora você pode tentar focar aquelas coisas que você realmente quer focar, como por que foi mesmo que ela deixou de ser minha amiga na internet?"
Também tenho me controlado para diminuir o número de softwares e janelas abertos simultaneamente nos meus computadores. Sim, tenho vários. Mas uma amiga escreveu perguntando onde estou, pois não tem me visto muito "nas praças virtuais de costume". Achei bom: estou no caminho em que quero estar.
Fui a um show no teatro "art déco" Paramount, na cidade de Oakland. Dois fatos me chamaram a atenção. Plateia enorme, todos sentados, exceto alguns que se levantaram para dançar sem sair do lugar. Ninguém gritou "Senta!", como aconteceria no Brasil. Perguntei se isso era normal na Califórnia e meu amigo respondeu que sim. Se alguém gritasse "Senta!", seria fuzilado pelos olhares gerais. Dançar pode, gritar não. Fumar maconha pode, cigarro não. Questão de hábito. Não estou criticando.
Outro fato que me chamou a atenção foi a luz dos celulares em uso, cegando a visão de quem tentava ver o palco. Esse comportamento, do qual estou tentando me livrar sem conseguir, está se alastrando. A tentação de fazer e publicar uma foto do show é enorme. Por que fazemos isso? Exibicionismo, só pode ser.
Na última semana, comecei a perceber que minha compulsão por fotografar faz parte do meu quadro clínico. Mas percebi também algo mais importante. Não sou a única viciada em tecnologia aqui em casa.
Entrei no quarto da minha filha de 13 anos outra noite e encontrei a garota cheia de fios debaixo das cobertas. Ela assistia pelo Skype uma amiga do Brasil deitada igualmente em sua cama. Elas estavam tão cansadas que mal balbuciavam de vez em quando. Era madrugada. Elas não queriam se desligar.'
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texto de marion strecker pra folha de s. paulo e foto daqui.

sorria meu bem, sorria!


"Na frente da câmara fotográfica, ninguém precisa nos dizer "Sorria!"; espontaneamente, simulamos grandes alegrias, sorrindo de boca aberta. Em regra, hoje, os retratos são propaganda de pasta de dentes -se você não acredita, passeie pelo Facebook, onde muitos compartilham seus álbuns, rivalizando para ver quem parece melhor aproveitar a vida.
O hábito de sorrir nos retratos é muito recente. Angus Trumble, autor de "A Brief History of the Smile" (uma breve história do sorriso, Basic Books), assinala que esse costume não poderia ter se formado antes que os dentistas tornassem nossos dentes apresentáveis.
Além disso, os retratos pintados pediam poses longas e repetidas, para as quais era mais fácil adotar uma expressão "natural". O mesmo vale para os daguerreótipos e as primeiras fotos: os tempos de exposição eram longos demais. Já pensou manter um sorriso por minutos?
Outra explicação é que o retrato, até a terceira década do século 20, era uma ocasião rara e, por isso, um pouco solene.
Mas resta que nossos antepassados recentes, na hora de serem imortalizados, queriam deixar à posteridade uma imagem de seriedade e compostura; enquanto nós, na mesma hora, sentimos a necessidade de sorrir -e nada do sorriso enigmático do Buda ou de Mona Lisa: sorrimos escancaradamente.
Certo, o hábito de sorrir na foto se estabeleceu quando as câmaras fotográficas portáteis banalizaram o retrato. Mas é duvidoso que nossos sorrisos tenham sido inventados para essas câmaras. É mais provável que as câmaras tenham surgido para satisfazer a dupla necessidade de registrar (e mostrar aos outros) nossa suposta "felicidade" em duas circunstâncias que eram novas ou quase: a vida da família nuclear e o tempo de férias.
De fato, o álbum de fotos das crianças e o das férias são os grandes repertórios do sorriso. No primeiro, ao risco de parecerem idiotas de tanto sorrir, as crianças devem mostrar a nós e ao mundo que elas preenchem sua missão: a de realizar (ou parecer realizar) nossos sonhos frustrados de felicidade. Nas fotos das férias, trata-se de provar que nós também (além das crianças) sabemos ser "felizes".
Em suma, estampado na cara das crianças ou na nossa, o sorriso é, hoje, o grande sinal exterior da capacidade de aproveitar a vida. É ele que deveria nos valer a admiração (e a inveja) dos outros.
De uma longa época em que nossa maneira e talvez nossa capacidade de enfrentar a vida eram resumidas por uma espécie de seriedade intensa, passamos a uma época em que saber viver coincidiria com saber sorrir e rir. Nessa passagem, não há só uma mudança de expressão: o passado parece valorizar uma atenção focada e reflexiva, enquanto nós parecemos valorizar a diversão. Ou seja, no passado, saber viver era focar na vida; hoje, saber viver é se distrair dela.
Ao longo do século 19, antes que o sorriso deturpasse os retratos, a "felicidade" e a alegria excessivas eram, aliás, sinais de que o retratado estava dilapidando seu tempo, incapaz de encarar a complexidade e a finitude da vida.
Alguém dirá que tudo isso seria uma nostalgia sem relevância, se, valorizando o sorriso e o riso, conseguíssemos tornar a dita felicidade prioritária em nossas vidas. Se o bom humor da diversão afastasse as dores do dia a dia, quem se queixaria disso?
Pois é, acabo de ler uma pesquisa de Iris Mauss e outros, "Can Seeking Happiness Make People Happy? Paradoxical Effects of Valuing Happiness", em Emotion on-line, em abril de 2011 (http://migre.me/9CT8e).
Em tese, a valorização ajuda a alcançar o que é valorizado - por exemplo, se valorizo as boas notas, estudo mais etc. Mas eis que duas experiências complementares mostram que, no caso da felicidade (mesmo que ninguém saiba o que ela é exatamente - ou talvez por isso), acontece o contrário: valorizar a felicidade produz insatisfação e mesmo depressão. De que se trata? Decepção? Sentimento de inadequação?
Um pouco disso tudo e, mais radicalmente, trata-se da sensação de que a gente não tem competência para viver - apenas para se divertir ou, pior ainda, para fazer de conta. Como chegamos a isso?
Pouco tempo atrás, na minha frente, uma mãe conversava pelo telefone com o filho (que a preocupa um pouco pelo excesso de atividade e pela dispersão). O menino estava passando um dia agitado, brincando com amigos; a mãe quis saber se estava tudo bem e perguntou: "Filho, está se divertindo bem?""
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texto do contardo calligaris na folha de s. paulo e foto daqui.