22 de maio de 2012

o mundo anda tão complicado


nas últimas semanas me deparei com os três textos que vem a seguir. as fontes são diferentes, os pontos de vista também, mas no final, os três estão querendo dizer a mesma coisa. as pessoas andam muito chatas, querendo parecer o que não são, mostrar o que não tem e julgar todo mundo. individualismo e narcisismo é o que dita essa sociedade dita moderna, onde todo mundo anda atropelando e passando por cima de tudo. no fundo tá todo mundo completamente perdido dentro de seus próprios mundos... ando lendo um livro do einsten (como vejo o mundo) antigo, mas tão atual, onde ele fala que o homem tem de preservar sim a sua individualidade, pois a criatividade e as grandes idéias surgem de pensamentos individuais, mas que é impossível para o ser humano não viver em sociedade. e deve-se respeitar  isso, pois dependemos uns dos outros. isso me fez chegar também, na entrevista do economista indiano. acho que o mundo inteiro anda precisando desacelerar e pra mim tá tudo relacionado. o contexto individual, leva com certeza ao contexto coletivo. ou então eu que ando muito chata e viajei! a foto é daqui.

as raízes profundas da crise


Para o professor da Universidade de Chicago, que anteviu o estouro da bolha, os estímulos de curto prazo são insuficientes para eliminar as fragilidades na economia mundial. O indiano Raghuram Rajan, 49 anos, é um dos economistas mais respeitados de sua geração, pelos seus diagnósticos precisos sobre o sistema financeiro e a economia global. Um exemplo: em agosto de 2005, numa conferência para debater o legado de Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve, o banco central americano, Rajan fez um discurso destoante dos elogios consensuais. Advertiu que a criação de aplicações financeiras complexas havia sido acompanhada de um aumento excessivo da exposição dos bancos a operações de risco, pondo em perigo o sistema financeiro global. Na ocasião, ele era o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, cargo que ocupou por três anos. Há dois anos, Rajan lançou o livro Fault Lines, uma referência às “falhas geológicas” que, em sua opinião, representam as causas profundas da crise financeira. A obra, escolhida como a melhor de economia de 2010 pelo jornal Financial Times, acaba de ser lançada no Brasil pela Editora BEI, sob o titulo Linhas de Falha – Como Rachaduras Ocultas Ainda Ameaçam a Economia Mundial.

Que “falhas geológicas”, como o senhor define, ameaçam a economia mundial?
Existem falhas profundas que são responsáveis pela crise nos últimos anos. Nos Estados Unidos e na Europa há uma combinação de baixo crescimento com distribuição desigual de renda. As políticas usadas para restabelecer o crescimento se mostraram insuficientes e, em alguns casos, criaram mais problemas. Nos Estados Unidos, os incentivos para a ampliação do endividamento das pessoas, especialmente utilizando a casa como garantia, foram uma das causas da crise imobiliária. Da mesma forma, na Europa, a disposição de governos para tomar dinheiro emprestado e gastar sem limite é em parte responsável pelas dificuldades da Grécia, apenas para dar o exemplo mais extremo. Outra falha advém do fato de muitos países possuírem políticas orientadas para o aumento do consumo, como é o caso dos Estados Unidos, enquanto outros estão voltados para produzir mais e poupar mais, como a Alemanha e a China. Essas divergências resultaram num desequilíbrio global, no qual alguns países bancam o excesso de gastos de economias ricas. É um movimento insustentável. A retração nas economias mais desenvolvidas resulta desse endividamento excessivo, tanto das famílias como do governo.

As autoridades mundiais estão combatendo essas falhas?
Os políticos, em geral, olham apenas o curto prazo. Eles costumam trabalhar preocupados com as próximas eleições. Pouco agem no sentido de consertar os fundamentos vitais para o longo prazo, como o   aprimoramento da educação, o treinamento dos trabalhadores e o aumento da produtividade. A tendência é escolherem a solução mais fácil, gastando um pouco mais e deixando o tempo sanar os desequilíbrios. Nem sempre essa estratégia funciona.

Devemos ficar pessimistas, portanto, com as perspectivas para a economia mundial?
Um dia os políticos podem reconhecer a necessidade de fazer reformas, ao menos em parte. É semelhante ao que aconteceu no Japão na década de 90. Os japoneses passaram oito anos fingindo que não havia problemas. Só então começaram a agir. Da mesma forma, se na Europa alguns países não fizerem as reformas estruturais necessárias, a região terá sérias dificuldades para crescer. É preciso assegurar que os salários sejam compatíveiscom o valor agregado pelos trabalhadores. Em alguns países, os salários subiram   muito acima da produtividade. Há duas maneiras de realizar esse ajuste agora. A primeira, cortando drasticamente os salários. É o que os programas de austeridade tentam fazer. A segunda, elevando a produtividade. É o que buscam as reformas estruturais. São medidas como o estímulo à competição, a redução dos custos operacionais e a diminuição do excesso de burocracia. Até agora, as autoridades tentam implantar só as medidas de austeridade, mas deveriam mudar o foco para as reformas. A analogia que se fazia com o Japão é a do sapo dentro de uma panela com água fria, colocada sobre a chama. Se a água for aquecida lentamente, o sapo não saltará e será cozido. Se a desaceleração na atividade econômica for lenta, não existe o impulso para mobilizar os políticos no sentido de executar as reformas.

É possível evitar uma nova crise?
Podemos fazer todo o possível para consertar, ao menos parcialmente, as falhas que originaram a última crise, mas isso não nos livrará necessariamente da próxima. Em geral, é difícil identificar as causas a tempo. Na minha avaliação, os maiores desafios da atualidade estão na desaceleração da produtividade, na queda do crescimento e na necessidade de reduzir a desigualdade de renda.

O senhor aponta a desigualdade social como uma das causas para a crise financeira americana. O incentivo para o aumento do endividamento, e a partir daí o estímulo ao consumo e à aquisição de imóveis, teria sido, segundo o seu argumento, uma maneira de amenizar o contraste social. A situação melhorou desde o estouro da bolha imobiliária?
Está piorando. As pessoas reconhecem que existe o problema, estão mais participativas – veja o movimento “Ocupe Wall Street” –, e o presidente Barack Obama começou a usar a desigualdade e a polarização como argumento para algumas políticas. Mas os democratas tentam apresentar os republicanos como o partido dos ricos. É um jogo de soma zero. Quando as pessoas dizem “vamos tirar dos ricos e dar aos pobres e assim reduzir a desigualdade”, está-se criando um conflito de classes. O melhor para todos seria dizer: “Ouçam, existem muitas pessoas que não estão se beneficiando do crescimento. Se não encontrarmos meios para trazê-las para participar desse processo, haverá uma polarização ainda maior e políticas piores”. Precisamos encontrar meios para que essas pessoas tenham acesso à educação de qualidade e aos serviços de saúde. Talvez, para isso, seja necessário mais dinheiro, que pode ser obtido taxando os ricos. Mas o governo poderia cobrar um pouco mais de impostos de todo mundo para ajudar os verdadeiramente pobres.

O senhor critica o Federal Reserve por manter a estratégia de juros baixos para reanimar a economia. Por quê?
A grande questão é o que virá depois. É imprevisível. Algumas regiões dos Estados Unidos experimentaram um boom imobiliário. Depois a bolha estourou. Agora as pessoas estão muito endividadas e não podem mais gastar. Mas são pessoas concentradas em poucos estados, como Flórida, Nevada, Arizona. As baixas taxas de juros não aumentam a demanda nesses estados, porque as famílias já vivem atoladas em dívidas. Se os habitantes de Nova York gastarem mais, eles não comprarão obrigatoriamente produtos fabricados em Nevada ou no Arizona.

O senhor vê indícios de que a política do Fed esteja alimentando novas bolhas?
Acredito que haja riscos, mas ainda não são bolhas propriamente ditas. Países como o Brasil recebem fluxo enorme de recursos porque, em parte, as suas taxas de juros são elevadas, enquanto nos Estados Unidos são muito baixas. Com o otimismo sobre a economia brasileira, o dinheiro continuará a entrar. Há outros indícios. Nos Estados Unidos, o preço da terra está subindo muito fortemente. É um problema potencial. Mas bolhas são algo sobre o que você nunca tem certeza até que ocorra o colapso.

Como evitar que o enorme fluxo de recursos que ingressam no Brasil possa ameaçar a economia?
Não existem instrumentos diretos que sejam sustentáveis no longo prazo para tentar conter a entrada de capital financeiro internacional. Mas há meios indiretos. As taxas de juros no Brasil são elevadas por uma série de razões. Seria útil corrigir os fatores estruturais que as pressionam. Ainda mais importante seria assegurar que, mesmo que o dinheiro ingresse no país para financiar a economia, ele não seja imediatamente utilizado e que se tente cortar os gastos em outras áreas. Será necessário pressionar o governo para obter superávits fiscais maiores, em vez de aumentar os gastos para absorver os recursos. Existe também a possibilidade de controlar a entrada de capital para prolongar o prazo de permanência do dinheiro. Por fim, pode-se facilitar a saída de capital do país, diminuindo, por exemplo, as restrições aos gastos no exterior das pessoas e também das empresas.

Por que o senhor não acredita na eficácia da política de estímulos ao consumo?
É preciso encontrar maneiras de obter um crescimento sustentável. Essa é a grande questão para todo o mundo. Em última instância, será o desafio que muitas economias emergentes já reconheceram para si. É preciso capacitar as pessoas, ampliar o acesso à educação e aos serviços de saúde e criar a estrutura para que possam trabalhar. Flexibilizar as regras para que possam sair do emprego se quiserem fazer coisas mais interessantes. Ou seja, retomar as medidas para o crescimento. São questões fundamentais para esses países.

A crise deu margem a que economias emergentes, como o Brasil, reforçassem o chamado capitalismo de estado, em que os governos são mais atuantes. Qual a eficácia dessa estratégia?
O capitalismo de estado pode funcionar em economias emergentes onde inexistam instituições privadas fortes, como uma alavanca temporária para reduzir a distância que as separa de países desenvolvidos. Se o estado é grande, pode cumprir as tarefas facilmente. É muito óbvio o que precisa ser feito, como pontes, estradas e fábricas. O problema é quando a missão não é tão clara, como avançar em inovação, algo essencial à medida que um país amadurece. Nesse ponto, são necessárias empresas privadas e independentes do governo, que possam fornecer incentivos para os seus trabalhadores progredirem e inovarem. Isso significa desistir de monopólios estatais, encorajar a competição, incentivar empresas privadas e privatizar. Há uma agenda extensa de ações, e muitos países não conseguem cumpri-la. Sou cético quanto à capacidade do capitalismo de estado de preservar o crescimento econômico, de maneira duradoura, à medida que um país enriquece.

No Brasil, o governo adotou medidas para defender alguns setores da concorrência externa, considerada desleal, principalmente vinda da China. É uma decisão acertada?
A pergunta certa a ser feita é: em que momento eles devem se tornar mais abertos e liberalizar a economia para que se beneficiem da competição, da inovação e do crescimento? A coisa errada a fazer quando um país passa a ser emergente é reduzir a competição, porque ele pode se tornar cada vez mais protecionista e se afastar da fronteira que o separa das nações desenvolvidas, em vez de se aproximar. A consequência é uma queda na produtividade. Uma vez que um país tenha crescido razoavelmente e atingido uma renda per capita média, como é o caso brasileiro, tentativas para reduzir a competição e para celebrar campeões nacionais tendem a afetar a eficiência no longo prazo.


Recentemente, o senhor disse que a Índia precisa acelerar as reformas. É uma lição de casa aos emergentes?
O que eu argumentei para as autoridades indianas é que os países em desenvolvimento, em geral, precisam de uma segunda rodada de reformas. A primeira onda foi bem-sucedida e resultou em um crescimento acelerado. Mas, se você não retomar as reformas e não aplicar de maneira transparente os recursos, a economia perderá o ritmo.

O que o Brasil pode aprender com a Índia?
O forte crescimento da economia global fez o preço de muitos recursos produzidos pela Índia subir tremendamente, de matérias-primas a equipamentos de telecomunicação. No início, não houve muita preocupação dos indianos com a forma como seriam aplicados os recursos nem com a transparência. Uma quantia enorme foi desperdiçada, e as pessoas perderam a confiança no governo. No Brasil, será muito importante avaliar se o dinheiro gerado pelo petróleo será utilizado em benefício da população. Se o governo quiser agir com transparência, os recursos devem ser destinados a uma conta separada, em vez de acabar como despesa pública. Parte da riqueza pode formar fundos que revertam em benefícios a gerações futuras. Outra parte pode virar investimento físico e em capital humano. Será crucial saber utilizar os recursos. Muitos países enfrentaram o desafio e não conseguiram ampliar os benefícios para a economia. Ao contrário, gastaram mal e tornaram-se menos competitivos.

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entrevista do economista indiano raghuram rajan, nas páginas amarelas da revista veja da semana passada.  aqui tem a transcrição da entrevista aí de cima e aqui a edição digital da revista. a foto é daqui.

parecer e aparecer


"A seção FYI (acrônimo de For Your Information, em inglês) estreia hoje no blog do IMS disposta a trazer os ares da mudança que o século 21 vem imprimindo em nosso dia a dia – e ela não está restrita a nenhum assunto, a não ser à contemporaneidade, indo do refinado ao trash, do hi-brow ao baixo escalão, do analógico ao digital. No comando da coluna estão Alexandre Matias, editor do Link, o caderno de tecnologia e cultura digital do jornal O Estado de S. Paulo e dono do site TrabalhoSujo.com.br, e Heloisa Lupinacci, editora-assistente do Paladar, o caderno de gastronomia do mesmo Estadão, além de autora dos blogs  Caracterescomespaco.com e DrumBun.com.
Se a high society virou a Sociedade do Espetáculo e as redes sociais ajudam qualquer um a criar sua própria alta sociedade, é natural que a mudança de sentido do termo social venha acompanhada de uma preocupação exagerada com a aparência. Não que isso seja novidade na história da humanidade. Índios botocudos aumentavam os lábios, as mulheres gir afa da Birmânia alongam o pescoço e todo mundo se olha no espelho antes de sair de casa. Mas estamos assistindo a uma evolução da consciência da aparência que vem alinhada à possibilidade de mudar drasticamente como nos vemos e somos vistos – além de acompanhar a repercussão dessas mudanças quase instantaneamente.
Quando Nigella Lawson – chef, musa do food porn, rechonchuda, rica e sexy, casada com o colecionador Charles Saatchi e conhecida no Brasil principalmente pelo programa de TV que leva seu nome exibido no GNT – deu de comer um macarrão oriental sem graça, feito de batata konjac e perdeu peso, bochechas e viço, a reação foi imediata . Ela tem o direito de se sentir bonita, bradavam uns respondendo àqueles que lamentavam a derrota da boa vida para a boa forma. Nigella era um símbolo da resistência ao padrão de beleza. Linda e acima do peso, dizia coisas como “nada é mais sexy do que o barulho do bacon fritando” seguidas de caretas de prazer ao levar a boca uma colher de purê de batatas com muita manteiga. A rendição à massa oriental sem gosto e vazia de nutrientes foi um triunfo da aparência.
Perez Hilton (não a Paris, o Perez) fez fama online como blogueiro implacável de celebridades, colecionando furos e fotos indiscretas como troféus de sua caça aos famosos. Transformado ele mesmo em uma celeb, logo virou alvo de sua própria aparência: fã confesso de hambúrgueres e sorvetes, era quase o estereótipo já clássico do gordinho gay espalhafatoso, camiseta justa demais denunciando as tetinhas. Eis que há menos de um mês ele reaparece transfigurado, de camisa aberta exibindo um tórax definido e um abdomem trincado. Em instantes, os questionamentos sobre métodos – fez cirurgia? – e as acusações – ele diz que não, ‘mas é claro que está mentindo’.
Como Nigella, a cantora inglesa Adele também é ídolo de quem achava que beleza não orna com magreza. As duas não são propriamente novidade – nem as personagens, nem a tendência: desde que Kate Winslet posou nua para Di Caprio em Titanic (e lá vão mais de dez anos, o próprio Titanic já foi içado de volta, desta vez para reafundar em 3D) que o ossário ambulante que habitava as passarelas de moda passaram para o segundo plano, abrindo espaço para a gordura natural de qualquer ser humano. Mas quando Lana Del Rey surgiu como contraponto a Adele, seu hype foi justificado por sua magreza, como se Lana fosse um antídoto à fofura da intéprete mais bem sucedida de 2011.
O caso Del Rey, no entanto, é mais complexo ainda: nascida Lizzy Grant, ela já havia tentado a sorte como cantora há alguns anos, sem sucesso. Mas passou por uma transformação de imagem que, além de mudar sua aparência física, também mudava a forma como poderia ser percebida. Mudou de nome, de visual e criou toda uma mística cult ao redor de sua reputação.
Não que isso seja uma novidade. Bob Dylan se chamava Robert Zimmerman e mudou de nome em reverência a Dylan Thomas e de postura em homenagem ao ídolo trabalhista Woody Guthrie. Os Beatles, caipiras de uma cidade portuária no norte da Inglaterra, pagavam de roqueiros mal encarados, com jaquetas de couro e cigarros pendurados no canto da boca, até que o empresário Brian Epstein os colocou em ternos bem cortados e aparou seus topetes para vendê-los para Londres. E Andy Warhol, que era Warhola, transformou esse papo todo em arte.
A mudança de Lana Del Rey não foi apenas um salão de beleza que transformou o loirinho sem graça de seu cabelo Lizzy Grant em um bolo de noiva à la Mad Men. Nem a possível injeção do cirurgião plástico que lhe acrescentou alguns gramas de beiço transformando sua boca miúda em um bocão da volúpia. Nem a produção do som, arranjos sofisticados e clipes superproduzidos. Lana Del Rey começou a se reinventar a partir da internet.
Ela apareceu com clipes que pareciam caseiros, misturando voyeurismo webcam a imagens retiradas de filmes antigos – de filmecos obscuros dos anos 50 a Uma Cilada para Roger Rabbit, com a curvilínea Jessica Rabbit funcionando como parâmetro imediato. Encarando a câmera como se a desafiasse, Lana foi além de criar uma imagem assumidamente cult. Com o clipe de “Video Games”, sua primeira grande canção, ela usou a estética cult como referência. E não o estreou na MTV – estreou no YouTube. Assim, ela poderia ser qualquer uma – e não a filha de um investidor milionário, como descobriram depois.

O fato é que o YouTube – ou melhor, a internet – funciona como uma tábula rasa para essa edição de personalidades. Inclusive a sua. Ao escolher fotos, frase para a descrição e selecionar os amigos em qualquer rede social, qualquer um edita sua própria vida como preferir – e como prefere aparecer para os outros. Lana Del Rey encontrou uma fresta em que conseguiu autenticidade por não parecer ter sido criada em um laboratório estético . No caso dela, sai o laboratório estético da grande gravadora e entra o laboratório estético do quarto de qualquer pós-adolescente. Basta um computador ou celular (a câmera já vem embutida) e uma imagem na cabeça.
Isso explica o sucesso do Instagram, o aplicativo/rede social para celulares integralmente dedicado a imagens que foi comprado na semana passada pelo Facebook. Antes exclusivo de usuários de iPhones (existia apenas versão para o sistema operacional dos celulares da Apple até que, no início do mês, foi lançada uma versão para Android, do Google usado em celulares de diversas marcas), nele cada usuário tem um perfil formado exclusivamente por fotos, tiradas quase sempre com a câmera do celular. Uma vez congelada a imagem, o usuário escolhe um filtro (retrô, colorido, branco e preto, super contraste, tipo pol aroid, etc.) para dar mais apelo ao ramerrame da vida. A edição é pressuposta, é nativa do programa (nativo, na tecnologíria, é aquilo que já vem junto. Por exemplo, o Paint é nativo do Windows. Ele já vem instalado, já está lá). Quadradinho por quadradinho (as fotos do Instagram não são 3×4, são 4×4), vai sendo construída a vida aparente de cada um.
Das fotos postadas no Instagram, um dos temas favoritos é comida – há até uma rede social apenas para isso, o Foodspotting. Pratos lindos, pães feitos em casa, frutas coloridas volta e meia aparecem no stream (a fileira de coisas publicadas por seus amigos) do Instagram. E sabendo que você vai fotografar e publicar o que vai comer, a aparência, de novo, ganha importância, talvez maior do que a própria comida. Não é o simples “você é o que vo cê come”, mas “você pode parecer ser o que você mostra que come”.
E, da mesma forma, isso acontece com o jeito que você se veste, se porta, caminha, espera. Há um desabrochar de consciência individual e coletiva que é anterior à internet (afinal, tribos urbanas existem desde quando?), mas com a possibilidade de editar nossas imagens online, isso se aguçou mesmo fora da rede.
Assim, assistimos, na segunda década do novo século, ao nascimento de uma individualização em massa que, inevitavelmente, cria multidões de clones. Mas isso é fase. Essa personalização radical da própria individualidade tende a se acentuar nos próximos anos, na medida em que cada um de nós se percebe como polo de emissão – não apenas de percepção. Afinal, não é à toa que “parecer” e “aparecer” sejam verbos tão, er, parecidos…"
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geração y: a geração da mentira


"Acho que uma das características marcantes dessa geração Y (da qual, eu feliz e infelizmente faço parte) é a possibilidade de ser assumidamente multi-tarefa: ninguém mais tem mais apenas uma profissão, o que é maravilhoso porque assim a gente aprende a desenvolver competências profissionais mais versáteis, o que é uma exigência assumida do mercado. Por outro lado, tem tanta gente que se aproveita disso pra fazer uma auto-promoção mentirosa e incoerente que dá nojo de acompanhar.
Aliás, ô geraçãozinha pra gostar de aparecer essa daqui. A verdade é que tem uma grande parcela dessas pessoas que não produz muito além das projeções que idealizaram para si próprias, que consistem na ambição de serem jovens bem-sucedidos antes dos 30, informados, hypados, lançadores de tendências, viajantes globais, e todos os empregos que permeiam o universo hipster, que geralmente começam em inglês: creative directors, curators, coolhunters, consultants, e por aí vai. Nada vezes nada ao quadrado.
Eu fico chocado como as pessoas conseguem acreditar em seus próprios arquétipos e se auto-intitularem C.E.Os de organizações de um homem só; creative directors de pseudoempresas (fazer uma logo no Photoshop não te transforma em uma pessoa jurídica, muito menos de respeito); ou editores-chefes, quando não publishers, de seus blogs. Falando em blogs, dá pra apontar a vontade latente de blogueiros em não se intitularem mais blogs por conta da pasteurização editorial do mercado (para não dizer orkutização), principalmente de moda feminina. Agora são diretoras-executivas de seus portais.
Outro ponto forte dessa ladainha de ‘profissionais do futuro’ é a capacidade de ser consultor de porra nenhuma. Sugiro a todos vocês muito cuidado ao fazer os próximos telefonemas para pedir uma simples opinião ou sanar alguma dúvida, pois você automaticamente pode estar ‘contratando uma consultoria grátis’, e se transformar em mais um cliente de seu vasto portfólio, ainda que tão jovem. Além de fantasioso, é principalmente anti-ético.
Estar rodeado de gente – principalmente nas redes sociais – se idealizando e vendendo desse jeito me dá um aperto no coração, por ver que a geração da qual eu cronologicamente faço parte, que deveria ser a mais esclarecida que já existiu, se perde em seu próprio narcisismo e deságua nos subterfúgios de títulos sem importância. E essa gente ainda é a primeira a trollar absolutamente tudo, talvez porque não saiba de verdade o significado de trabalhar.
Que vergonha. Pau no cool."
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texto do caio braz e foto daqui.

dentro de nós


"De vez em quando sinto uma falta de ar violenta. Mas não se preocupe, acho que não tem nada de errado comigo ou com meus queridos pulmões. A coisa vai mais além (e vem mais de dentro): está difícil viver. É julgamento aqui e ali, feito bala perdida. Sobram juízes, sobram deuses, sobram entendidos em todos os assuntos. E falta um pouco de olho no olho e compaixão.
 Esse nosso mundo está cada dia mais complicado, acho que os valores estão escorrendo pelas nossas mãos. E ninguém quer parar, pisar no freio, respirar fundo e olhar para os dois lados. Todo mundo segue acelerando sem olhar para trás, sem se importar com o bem-estar do outro. Até quando? Até quando as agressões serão gratuitas? Até quando a gente vai aplaudir a moça que raspa a cabeça na televisão? Até quando a graça vai ser rir da desgraça alheia? Até quando vai ser bonito falar palavrão e tomar tarja preta? Até quando vai ser legal sair com a bunda aparecendo no meio da rua? Até quando você vai se preocupar se a filha de A ou B tem a doença C? Até quando você vai apontar o erro do outro ao invés de reconhecer seus próprios erros?
 Não aguento mais esse ti-ti-ti, esse bafafá, essa gente que não é capaz de olhar para si primeiro. Tudo precisa de rótulo, tudo precisa ser debatido, tudo precisa virar confusão, tudo é levado para o outro lado e encarado como crítica. As pessoas estão sensíveis e agressivas demais. É contraditório, eu sei. Mas jogam mil pedras nos outros e ficam ofendidas por pouco. Isso é demais pra mim. É por isso que cada vez mais eu me fecho no meu mundinho. E lá entra quem eu quero, quem é da minha tribo. Porque esse mundo onde tudo é guerra, confusão e gritaria não é comigo. Não gosto do grito, prefiro os meus silêncios. Não gosto da confusão, sou do time da calmaria. Não gosto do tumulto, prefiro a paz. Não gosto da fofoca, prefiro falar com os olhos. É mais humano, mais leal, mais digno, mais legal.
Acho que as pessoas andam perdidas. E fazem a maior questão de se preocupar com o que está fora. Esquecem que o que nos acompanha é o que fica lá dentro. E essa é a nossa melhor e pior parte."
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texto da clarissa corrêa pro confusões e confissões e foto daqui.

17 de maio de 2012

sonzinho de quinta!

we can be heroes

 

não é segredo pra ninguém por aqui que perdi minhã mãe faz alguns meses, e isso tem sido difícil pra mim em vários aspectos. final de semana passado, foi meu primeiro dia das mães sem a minha, e embora eu nunca tenho levado essa data a sério, desta vez isso mexeu comigo mas de uma maneira positiva, eu acho. me explico. previsão de chuva pro final de semana, reunião na escolha do meu filho, pra esclarecimento de notas  x comportamento, que não andam lá muito legais (12 anos, pré-adolescência, hormônios e sentimentos em ebulição, sabe como é) e o marido indo pra são paulo passar o dia, por compromissos de trabalho, sem previsão de chegada, ou seja, muitos fatores colaborando pra um final de semana do dia das mães meio catastrófico. mas eu disse não, não vamos ter um final de semana chinfrim. e foi aí que tudo mudou. tive uma longa e dura conversa com meu filho, que depois foi amenizada com almoço, livros novos  e cinema com amigo, fomos assistir os vingadores (the avengers). supermercado com o marido a noitinha, diferente de sempre, receita nova de torta integral adaptada que ficou com cara duvidosa e sabor incrível, à uma da matina. no domingo, feira embaixo de chuva, pra encontrar mandioca  e flores, almoço gostoso, com outra receita nova de tarte tatin e filme a tarde pra ficar embaixo das cobertas no frio. e cheguei a conclusão que a gente pode sim encontrar alegria nas pequenas coisas 'apesar' de tudo. com a morte passando assim tão pertinho de mim, descobri na pele que a vida é finita sim, e é muito curta. daqui a pouco eu faço 40, daqui a pouco vou pros 60, daqui a pouco meu tempo acaba. conversando com meu marido a caminho da feira, descobri que eu adoro super heróis, aliás sempre gostei, só não tinha me dado conta disso, imagino que o mundo com eles seria um lugar bem melhor pra se viver, e a gente poderia ver o que é ser imortal, o que é ter super poderes e não perecer nunca. e foi nesse momento, sem brincadeira nenhuma, que david bowie começou a cantar 'heroes' no radinho do carro, muita coincidência. minha mãe e meu pai sempre foram meus heróis de carne e osso, sem dúvida nenhuma e sem querer cair na pieguice, mas eles são finitos, como todos somos, quer queira eu ou não. e eu tenho que me acostumar a isso. o papel de super heroína agora é meu, pro meu filho, que precisa de mim mais do que nunca neste momento. precisa que eu seja forte o bastante, pra aguentar as barras e segurar as ondas, bem 'de boa na lagoa', como ele mesmo diz. e é estranho trocar de papel. cada um que passa por um trauma ou uma perda, tem seu período de luto, e esse período, mais do que só um período de sofrimento, é um período de introspecção e muitas descobertas. você observa a si e ao mundo ao redor, com muita cautela e olhar mais calejado, pra depois sair desse turbilhão de sentimentos mais forte e talvez até mais tranquilo. fiquei feliz a beça nesse dia das mães, que foi pra mim o primeiro que eu senti mesmo, de verdade. fiquei feliz pra caramba em descobrir que a minha ferida criou casca. acho que a gente é mesmo bem parecido com a fênix, ave da mitologia grega que quando morre, renasce das próprias cinzas e pode voar carregando grandes pesos. e lembrei de mim criança, no coreto da praça, rodando até ficar tonta com uma saia rodada que minha mãe tinha feito pra mim, tentando me transformar na mulher maravilha. a gente é mesmo muito frágil e bobo. a foto é daqui.

 

16 de maio de 2012

porque me arrasto a seus pés?



queria esse sapato pra usar com esse vestido. e de quebra podia vir o sofá também!!! as fotos são daqui.

the man who sold the world






 
david bowie é meu cantor favorito desde sempre. aliás, desde que eu li christiane f., 13 anos, drogada e prostituída quando tinha 13 anos. christiane tinha uma coleção de lp's do david que ela amava, e em determinado momento, vendeu tudo pra comprar heroína. meu marido me conquistou mesmo, quando me disse, em uma de nossas conversas, que amava o bowie e tinha assistido o show no brasil em 1990. falei isso pra ele domingo! david fez 65 anos em janeiro e ainda continua sendo o número um da minha lista.

15 de maio de 2012

era perfeita simetria, éramos duas metades iguais





a artista plástica yayoi kusama está com uma retrospectiva de sua obra no tate modern em londres que eu adoraria ver!
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"Esferas. Perfeitamente simétricas e coloridas. Essa forma geométrica, tão imersa na vida cotidiana por meio de objetos banais, ganhou uma nova perspectiva a partir da visão peculiar de Yayoi Kusama. Contemporânea de nomes como Andy Warhol, Georgia O’Keeffe e Claes Oldenburg, a artista plástica japonesa converteu-se em um dos expoentes do movimento pop que dominou os Estados Unidos na década de 1960 e, muito antes de Takashi Murakami, conquistou Oriente e Ocidente com sua “psicodelia poética”. Desde o início de fevereiro, a Tate Modern, em Londres, está apresentando uma das maiores retrospectivas da obra de Kusama, que, prestes a completar 83 anos, continua ativa e inspiradora."
...
pra ver esta reportagem completa, clique aqui. yayoi fez também as ilustrações de uma nova versão pra o clássico 'alice no país das maravilhas' e a reportagem você vê aqui.

in a shameless world

eu cheguei até a edição de maio/12 da interview magazine por causa da entrevista do jack white:




"Well, as a songwriter, it's really dangerous to use the word love in a song. It's a word that has been used in songs so many millions of times before, and it's the most popular topic to ever write about. So I thought that if I was going to be brave enough to actually use the word love in a song, I better be trying to make people think about it—and make myself think about it. I really wanted to stir up the notion of what love could mean, and what we really want when we say that word. It's a very powerful word."
...
"You know, I really think that all relationships that are beautiful and lasting are a struggle. I think when things are too easy, it's harder to appreciate the beauty, and it's the same thing with the guitar. I mean, they're also this inanimate object that I take "on stage. It's just a tool in one sense, but I'm trying to make friends with it, and I struggle with it. I really need to sort of identify with it as a sort of personality at the same time."
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mas daí que acabo me deparando com uma entrevista do michael fassbender, em uma edição anterior e não aguentei, já que ele anda sendo meio que meu 'objeto de desejo' do momento:



"All of these characters are trying to connect to one another in some way or other. We’re all trying to connect to each other and find some levels of intimacy. There’s so much going on in the world. There’s so much information being thrown at us—so many things are being sold to us, and we’re being told how we should appear and how to be more successful, blah, blah, blah. How does that manifest itself? In the pressures, the stress, this need to escape. I like Brandon because he’s trying. You mentioned this idea of disgust—that was something I knew I wanted to represent in him in the sex scenes, making them a repulsive sort of thing to look at. But I was also hoping and banking on the fact that he’s trying. There’s his date with the character Marianne: They go for the walk where he’s clumsy, but he tries to open himself up, and we see this childlike personality start to emerge. So I was just hoping the audience would understand that he’s struggling with this addiction. It’s not like he’s going, “To hell with it, and damn the consequences.” He’s living the consequences."
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"If there’s really something at stake, then the questions that we can ask are a lot more severe and force us to take a look at things without the sugar coating. I don’t have any answers—that’s for damn sure. But why not pose the questions? Why not provoke some thought and get people talking about things? I like characters that are flawed because we all are. When people break up in a script, you think, Oh, right, there must be tears shed here. But maybe the fact of the matter is that they’re both laughing. People are complicated. Our behavior towards one another is strange. So I like opportunities to investigate that."
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pra ler as duas entrevistas na íntegra e em inglês, clique aqui para o jack white e aqui para o fassbender. divertam-se!

14 de maio de 2012

a mãe da gente


"Não gosto de escrever sobre ou em datas especiais, mas desta vez falo dessa singular criatura que é a mãe da gente, e dessa mais singular ainda relação entre nós e ela. Entre ela e nós? Há discrepâncias iniciais: o que sentimos e pensamos não coincide, em geral, com o que ela sente e pensa. Um dos dramas humanos é a distância entre a intenção de quem disse a palavra ou fez o gesto, o olhar, e quem os recebeu e tantas vezes interpretou erradamente, guardando mágoas das quais o causador nunca teve a menor ideia, muito menos intenção.
A intensidade com que sentimentos e cultura caracterizam e oneram as relações humanas, sobretudo essa, de mães e filhos, pode ser pungente. Algumas brincadeiras bobas não são tão bobas: "Mãe de mais, vira mimado; mãe de menos, fica revoltado". Peso excessivo se coloca sobre os ombros de mãe, e de pai também. Se uma boa família, isto é, razoavelmente saudável, em que corra mais forte o rio do afeto e da alegria do que o da frieza e do rancor, tende a produzir indivíduos emocionalmente mais saudáveis, a regra tem muitas exceções. Boas famílias podem conter filhos neuróticos, violentos, drogados, e famílias disfuncionais podem produzir gente equilibrada, positiva, produtiva.
Partindo do princípio de que relações são complicadas, ter um filho (a mais incrível experiência humana), ter de (ou querer) criá-lo para que seja feliz (seja lá o que isso significa), cuidar de sua saúde, seu desenvolvimento, dar-lhe afeto, bom ambiente, encontrar o dificílimo equilíbrio entre vigiar (pois quem ama cuida) e liberar (para que se desenvolva), é tarefa gigantesca. Que a mais simples mãe do mundo pode realizar sem se dar conta, e na qual a mais sofisticada mãe pode falhar de maneira estrondosa, dando-se conta disso, ou jamais pensando nisso.
Neste universo de contradições, pressões, exigências, variedades e ansiedade em que andamos metidos, qualquer tarefa fica mais difícil, que dirá a de manter, concreta e emocionalmente, uma família numa relação boa dentro do possível. Os compromissos de pais e mães se avolumam, as necessidades e exigências de filhos e filhas se multiplicam, as ofertas se abrem como bocas devoradoras, o stress, a pressa, a multiplicidade de tudo, nos deixam pouco tempo físico para conviver com alegria ou escutar com atenção, e pouca disponibilidade psíquica: também pais e mães estão aflitos.
Se antes o pai chegava em casa à noite cansado, querendo jantar, ler o jornal, olhar um pouco os filhos e a mulher descansar, hoje chegam exaustos os dois: a mãe, além disso, pela constituição biopsíquica com que a dotou a mãe natureza (para preservação da espécie), e pela culpa que nossa cultura lhe impõe (ou é uma culpa natural e inevitável), chega duplamente sobrecarregada. Incluam-se aqui tarefas que parecem banais, como olhar roupa, comida, questões escolares dos filhos, embora hoje uma parcela crescente de pais tenha entendido que, não sendo nem retardados nem deficientes físicos (ou mesmo sendo), podem assumir e curtir esses pequenos grandes trabalhos.
A mãe da gente é aquela que nos controla e assim nos salva e nos atormenta; e nos aguenta mesmo quando estamos mal-humorados, exigentes e chatos, mas também algumas vezes perde a calma e grita, ou chora. Mãe da gente é aquela que nos oprime e nos alivia por estar ali; que nos cuida, às vezes demais, e se não cuida a gente faz bobagem; é a que se queixa de que lhe damos pouca bola, não ligamos para seus esforços, e, mais tarde, de que quase não a visitamos; é aquela que só dorme quando sabe que a gente está em casa, e chegou bem; a que levanta da cama altas horas para pegar a gente numa festa quando o pai não está ou não existe, ou já fez isso vezes demais.
A mãe da gente é o mais inevitável, inefugível, imprescindível, amável, às vezes exasperante e carente ser que, seja qual for a nossa idade, cultura, país, etnia, classe social ou cultura, nos fará a mais dramática e pungente falta quando um dia nos dermos conta de que já não temos ninguém a quem chamar "mãe"."
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texto da lya luft na revista veja da semana passada e foto daqui.

10 de maio de 2012

sonzinho de quinta!


o estranho (e maravilhoso) mundo de jack white está de volta!!!

porque me arrasto a seus pés?


-- Mãe, fica mais um pouco!
-- Tá bom, só mais um pouco...
-- Um, não! Dois poucos, pelo menos.
-- Combinado. Dois poucos e depois vou trabalhar.
-- Ah, então... Então fica um poucão!!!!
-- Um poucão? Mas daí é muito!
-- Isso, mãe! Fica muuuuito.
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6 meses amanhã e eu queria que ela tivesse ficado mais um poucão... texto daqui e foto daqui.

4 de maio de 2012

le désert de mon coeur


'O que evoca para nós a palavra deserto? Silêncio, imensidão, vento abrasador? Não apenas. Evoca também sede, miragens, escorpiões… e o encontro do mais simples de si mesmo no olhar assombrado e surpreso do homem ou da criança que brota não se sabe de onde – entre as dunas. 
Existem os desertos de pedras e de areias, o deserto do Hoggar, de Assekrem, de Ténéré e do Sinai e de outros lugares ainda… o deserto é sempre o alhures, o outro lugar, um alhures que nos conduz para o mais próximo de nós mesmos. 
Existem os desertos da moda, onde a multidão se vai encontrar como um pode tagarela, em espaços escolhidos, onde nos serão poupadas as queimaduras do vento e as sedes radicais; deles se volta bronzeado como de uma temporada na praia, mas ainda por cima, com pretensões à “grande experiência”, que nos transformaria para sempre em “grandes nômades”… 
Existem, enfim, os desertos interiores. Temos que falar deles, saber reconhecer o que apresentam de doloroso e tórrido, mas tentando também descobrir, aí, a fonte escondida, o oásis, a presença inesperada que nos recebe, debaixo de uma palmeira sorridente, em redor de uma fogueira onde a dança dos “passantes” se junta à das estrelas. 
Pois o deserto não constitui uma meta; é, antes, um lugar de passagem, uma travessia. Cada um, então, tem a sua própria terra prometida, sua expectativa que deverá ser frustrada, sua esperança a esclarecer. Algumas pessoas vivem esta experiência do deserto no próprio corpo; quer isto se chame envelhecer, adoecer ou sofrer as consequências de um acidente. Esse deserto às vezes demora muito a ser atravessado. Outras pessoas vivem o deserto no coração das suas relações, deserto do desejo ou do amor, das secas ou dos aborrecimentos que não aprendemos a compartilhar. 
Há também os desertos da inteligência, onde o mais sábio vai esbarrar no incompreensível e o mais consciente no impensável. Só conseguimos conhecer o mundo e as suas matérias, a nós mesmos e às nossas memórias quando atravessamos os desertos. 
Temos, finalmente, o deserto da fé, o crepúsculo das ideias e dos ídolos, que havíamos transformado em deuses ou em um deus, para dar segurança às nossas impotências e abafar as nossas mais vivas perguntas. Cada pessoa tem seu próprio deserto a atravessar. E a cada vez será necessário desmascarar as miragens e também contemplar os milagres: o instante, a aliança, a douta ignorância e a fecunda vacuidade.'
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texto de jean-yves leloup que eu li lá no chá e foto daqui. eu ando atravessando uns desertos parecidos. talvez por isso esteja querendo os meus silêncios. talvez por isso ande procurando a quietude. pra ler escutando emilie simon.