16 de dezembro de 2011

feliz ou sempre?

"Eu choro em casamentos. Choro em bodas de pra­ta, de ouro. Choro até em cena de casamento de novela, mesmo que nunca tenha visto algum capítulo. Choro porque acho bonito, porque o coração acredita. Mas sou cuidadosa com o casamento.
Casei-me uma vez. Entrei feliz ao som dos Beatles. Durou 30 meses – o tempo dos contratos de aluguel – e a separação foi para mim uma alegria maior. Admito que minha experiência foi um caso à parte. Aquela relação não teria ido longe, independentemente do formato.
Mas, se a cada dia mais pessoas se casam, a cada dia mais casais se separam. Meu irmão costuma dizer que o segundo casamento é o que dá certo. Entendi isso depois que me separei. Logo me apaixonei por um homem que também havia sido casado. Vivemos uma união em casas distintas e, como reza o ritual que não fizemos, a morte nos separou. Mas a experiência anterior ajudou no cui­dado que tivemos um com o outro nessa segunda chance. Aprendi lições que o tempo vem confirman­do.
Muita gente se casa para os outros, não para si mesmo. Prefiro o amor silencioso e quieto: um senti­mento que não foi feito para todo mundo frequentar.
Casamento é a tentativa de fortalecer um laço que tem a fragilidade como essência – e aí mora a sua magia. Deve-se tomar cuidado com a armadilha de ter que ser para sempre. A obrigação é inimiga do desejo. Ignorar a promessa de eternidade talvez seja um bom começo para quem quer ficar junto o resto da vida.
Para uma relação, levam-se problemas, histórias, medos, frustrações. Mas não é essencial casar-se com a fila de banco que o outro teve que frequentar, nem com a irritação depois de um dia de trabalho. É importante dar colo, mas não se pode ser colo o tempo todo. Dividimos com o outro as coisas difíceis na intenção de que elas se dissipem, não na de que aumentem de tamanho. Se for somar, que sejam as alegrias.
Casamento não é nem pode ser fusão. Um mais um continua sendo igual a um mais um. Cuidado com a vontade de ser dono da outra pessoa – já é tão difícil sermos donos de nós mesmos. O amor é feito de matéria sutil, e seu alicerce é justamente a impossibilidade de “ter” o outro. Quando o outro não está garantido, fazemos mais por ele. É sempre tempo de cultivar a delicadeza.
Muitos só entendem isso depois que se separam. Aí entra o raciocínio do meu irmão: numa segunda vez, erra-se menos. Quem já se separou certamente sabe o que é viver sozinho. E é preciso saber viver só para viver bem a dois.
Quem vive só se mobiliza para resolver seus problemas, não fica à espera de que o outro o faça. Quem vive só cultiva hábitos próprios, conjuga os verbos no singular. O plural é lucro. É fundamental preservar a independência, ou a relação se torna um depositário das mazelas e dos problemas mútuos.
Deve haver um jeito de reservar o melhor de nós para o outro e guardar o pior para nós mesmos. Preservar pequenos mistérios que nos mantêm interessantes. Há uma alquimia no exercício da conquista, do cuidado, da atenção.
É preciso cuidar do amor como planta frágil que é. Água demais, sol de menos, muito tempo no canto errado da varanda: tudo isso pode fazer murchar o que antes era exuberante. Para florir, cada planta tem seu jeito. Como cada relação tem seus mistérios e idiossincrasias.
Não tenho dúvida: o amor é feito de presenças e faltas. E é na falta que se apura a vontade de estar junto. Acordar juntos é gostoso; acordar com saudade também. É que outra essência do amor é a liberdade: é preciso espaço para ele crescer confortável.
E assim a possibilidade de ver a pessoa amada se apaixonar de novo deixa de ser ameaça para ser sorte: pode ser por você a paixão. O encantamento que renasce muitas vezes.
Amor pede rotina. Mas pede a suavidade de não fazer tudo sempre igual. Pede o cultivo da intimidade sem excessos. Amor é construção. Um tijolo a cada dia. É um trabalho que não termina nunca. Talvez seja esse o real significado da expressão “Felizes para sempre”."
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(texto da cris guerra e foto de elizabeth weinberg)

15 de dezembro de 2011

i wanna dance with my baby

"Ele disse, rindo, que gosta de músicas estranhas.
Eu não disse - não sei por que não disse, acho que porque sou tonta - mas pensei.
Pensei que uma das coisas que eu mais gosto nele é o gosto musical. Mesmo que eu não conheça nem metade do que ele ouve. Eu amava chegar lá, quando a gente ainda estava se conhecendo, e ver que tava tocando uma música que eu nunca tinha ouvido na vida. E quando tava tocando alguma coisa que eu conhecia, eu queria dar um abracinho e dizer "também gosto dessa!" Mas não dizia.
A gente pode ser bem pateta às vezes. Quando eu digo a gente, estou falando de mim. Quando eu digo às vezes, estou falando do tempo todo. Sempre."
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(texto lindo da renata do tantos clichês e foto daqui)

days of thunder

"De que são feitos os dias? De pequenos desejos, vagarosas saudades e silenciosas lembranças." (frase de cecília meireles e ilustração de anna cunha)

quando janeiro chegar...

ando assim, com férias marcadas pra janeiro e todo esse ânimo pra trabalhar... chega logo janeiro... tirinha da mulher de 30.

2 de dezembro de 2011

a crônica da testa ambulante

" Hoje levei minha testa para passear.
Acordei antes do sol nascer. Mas não assisti ao espetáculo de frente, apenas senti o apartamento iluminar aos pouquinhos. De qualquer maneira, eram 5:30, e ainda faltava tempo para abrir o comércio das ruas aqui de baixo. Ainda mais sábado.
Ainda em ritmo de gato, dediquei-me a banhar meu rosto de água fresca, lavando os poros com um sabonete em cuja propaganda caí como um patinho ( sem culpa ).
O caso é que, para aplicar o produto me foi preciso uns grampinhos que prendiam a franja ao coro deixando nua a testa.
A testa, essa sobre a qual já tanto escrevi, personagem de dilemas, questões e poesia minha. Chega a ser protagonista.
Abri, novamente os olhos e, pelo espelho, cumprimentei minha testa.
- Quanto tempo!
Foi quando decidi a levar para passear.
Deve ser muito chato, realmente, limitar-se à convivência com minha cabeça e inconsciente.
Pobre testa, que tantos anos esteve por tras dos fios de cabelo, sem ver o sol, as amendoeiras, as pessoas. Tanto tempo sem sentir a brisa da vida, sem olhar, perceber, sentir e sugar, nos poros, o mundo.
Mas hoje dei a ela o que ela queria: ser testa.
Ser, simples e puramente, como parte de um bicho.
Convenhamos, a testa há de ter uma função. Se não, o fato de ela existir dá, a ela, uma função, já por tal fato.
Este óbvio e imenso fato: a testa existe.
Então, lá fui eu e a testa, descendo a ladeira.
Senti-la me conduzir, como se andasse apressada, querendo desesperada e apaixonadamente recuperar o tempo perdido, o tempo que esteve escondida.
Eu cortei franja cedinho, não chegara aos dez anos, ainda.
Lembro bem quando tomei a decisão. Estava na sala de aula e a professora pediu que eu entregasse folhas sulfite, enquanto meu colega recolhia a atividade anterior.
Fui percorrendo os corredores formados pelas carteiras organizadas em fileiras, obedecendo à tarefa. Eis que veio meu colega, que, por ter começado um tanto antes e por ser, além disso, mais rápido, colar nas minhas costas para continuar seu trabalho.
Ele queria ir no mesmo sentido que eu, mas tinha outro ritmo. Eu era o obstáculo, estava na frente, atrapalhando seus movimentos.
Era o menino mais popular da série, o mais desejado, o mais bonitinho, bem vestido. Chegava a ter aqueles beiços avermelhados.
E lá estava montada a cena, ele querendo passar, brincalhão, extrovertido, querido, seguro, rápido, bonito, forte, grande ( éramos do mesmo tamanho físico ). E eu, insegura e existencial.
” olha a Maria Luiza, com a testa sem cabelo” – cantarolou a voz masculina que soava, alto e gigante na melodia de sambalelê, com letra adaptada à situação.
Acompanhavam petelequinhos nos meus ombros e, na segunda repetição da brincadeira-trilha-sonora, alguns tapinhas no bloco que eu segurava nos braços.
Na minha memória, aquela sala gigante foi banhada por gargalhadas aterrorizantes. E sou incapaz de relatar como foi realmente, uma vez que só sei mesmo da minha memória.
Hoje, chego a pensar que existe a possibilidade de ninguém ter nem sequer escutado, nem dado risada, nem ligado. Chego a achar que tanto fazia, para os outros, a minha testa.
Mas eu achava minha testa especialmente grande. De fato, comparativamente, exatos 4 dedos a mais que a da minha irmã.
Claramente um fator sem a menor importância.
Seja como for, o importante, hoje, é que hoje minha testa foi passear.
E foi na frente."
+++
sinceridade enorme da mallu magalhães nesse texto lindo. pra poucos. muito difícil admitir pra si, que dirá pros outros. quando a gente começa a reconhecer nossos defeitos e aceitar que não podemos mudá-los, aprendemos que somos mais fortes e melhores que eles. e os defeitos viram na verdade, auto-conhecimento. e a gente aprende a se amar do jeito que é. a foto é daqui.

1 de dezembro de 2011

It's a kind of magic





queria qualquer uma destas pra pendurar na parede de casa!!! ilustrações lindas de tran nguyen. mais você vê aqui.

uma música...

where did you sleep last night?

"Às vezes levanto de madrugada, com sede,
flocos de sonho pegados na minha roupa,
vou olhar os meninos nas suas camas.
O que nestas horas mais sei é: morre-se
(...)
A menina que durante o dia desejou um vestido
está dormindo esquecida e isto é triste demais
porque ela falou comigo: "Acho que fica melhor com babado"
e riu meio sorriso, embaraçado por tamanha alegria.
Como é possível que a nós, mortais, se aumente o brilho nos olhos
porque o vestido é azul e tem um laço ?
Eu bebo a água e é uma água amarga
e acho o sexo frágil, mesmo o sexo do homem."
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(lindo texto de adélia prado e linda foto de andrea dicenzo)

me trate bem vida...

estou muuuitooo precisada de férias... (foto daqui)

whatever...